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A VONTADE DE DEUS E SEUS SENTIMENTOS

Suponha que você recebeu pelo correio um cheque de algum multimilionário, preenchido em seu nome, com a quantia de dez mil dólares. Provavelmente você se sentiria muito emocionado, não é? Sentir-se-ia, igualmente, um pouco cético. Mas o cheque está preenchido, e efetivamente, se destina a você. Você se sente exultante e mostra-o aos amigos e vizinhos. Planeja como irá gastá-lo ou investi-lo ou economizá-lo para alguma ocasião futura. E finalmente chega o dia em que você está pronto a levá-lo ao banco e descontá-lo.
Mas naquele dia você não está se sentindo muito bem. A emoção se esgotou. Você adoece de um resfriado e sua garganta está inflamada. Talvez você esteja se sentindo um pouco culpado, percebendo que não fez nada para merecer este presente de dez mil dólares. Talvez você ainda tenha a sensação de que isto é bom demais para ser verdade. Mas você vai ao banco e depois de estar na fila por alguns minutos, chega a sua vez no caixa. A esta altura você está se sentindo completamente indisposto. Mas você ainda tem dez mil dólares.
O caixa e o banco não estão preocupados com seus sentimentos. Você pode estar alegre ou deprimido; isto não faz diferença. O fator decisivo quanto a se o dinheiro é seu ou não baseia-se completamente no valor do cheque e na assinatura da pessoa que lho deu. Seus sentimentos são irrelevantes. 
O passo dois no conhecimento da vontade de Deus em sua vida e na compreensão de Sua orientação é mais uma advertência do que um processo real. É que você não deve se deixar guiar pelos sentimentos.
Esta é uma advertência válida, porque muitas vezes a tentação consiste em fazer exatamente isto. Talvez quando você pela primeira vez começa a buscar a vontade de Deus sobre um assunto, tem uma "primeira impressão do que deveria ser Sua resposta. Mais tarde, se Sua resposta é protelada, é fácil ficar impaciente e desanimado. Mas você não deve confiar nem no primeiro impulso nem nas emoções instáveis que podem seguir-se quando se propõe tomar uma decisão especial. Os sentimentos jamais são um guia seguro.
O grupo intitulado "Campus Crusade" (Cruzada Evangelística para Universitários) tem um pequeno diagrama que usam para ilustrar este ponto. Pintam uma locomotiva, um vagão carvoeiro e um vagão de freio. A locomotiva é rotulada de realidade. O vagão carvoeiro é a fé. O vagão de freio chama-se sentimento. Se você tentar dirigir um trem pelo vagão de freio, entra em dificuldades. É a locomotiva que deve puxar o trem. E afinal, a locomotiva pode fazer a viagem com o vagão de freio ou sem ele.
Os sentimentos podem incluir muita coisa. Está você com medo de realizar algo especial? Vai isto contra seus gostos pessoais? Parece isto emocionante? Você acha que seria divertido? Parece que você não está qualificado para a tarefa? É isto precisamente o que você sempre quis? A lista poderia prosseguir infindavelmente. Os sentimentos, tanto bons quanto maus, vêm em muitas variedades.
Um motivo por que este segundo passo é tão importante é que ao tentar compreender a vontade de Deus em sua vida é importante considerar todos os oito passos, e não apenas um ou dois. Os oito passos provêem um sistema de cheques e saldos. Você pode errar em um passo, mas os outros passos podem mostrar-lhe onde você errou. Afinal, a decisão é tomada à base do peso da evidência, não baseada em qualquer passo único. Mas a advertência está aqui incluída sob o passo dois porque este passo é talvez aquele que é o mais fácil de considerar-se completo em si mesmo. É uma importante advertência porque os sentimentos, tanto positivos quanto negativos, podem ser incentivos muito poderosos. Contudo se você tentar dirigir sua vida espiritual baseado nos sentimentos, achar-se-á em tanta dificuldade como se tentasse dirigir o trem pelo vagão de freio. Não leva você a lugar nenhum.
Todavia, não devemos desconsiderar completamente os sentimentos. Um dos métodos pelos quais o Senhor nos comunica Sua vontade é através das impressões do Espírito Santo sobre o coração. As impressões e os sentimentos podem ser muito semelhantes, não é? Como sabe você a diferença entre simples sentimentos, o impulso do momento, e a convicção do Espírito em sua mente?
Reconheçamos primeiramente que há alguns sentimentos que são pecaminosos e outros que não são pecaminosos. Os sentimentos pecaminosos podem incluir temor, paixão, dúvida, ira ou cobiça. Os sentimentos que não são pecaminosos podem incluir coisas como esperança, felicidade, cansaço, fome ou tristeza.
O diabo gosta de operar através dos nossos sentimentos para afastar-nos de Deus. Se estamos nos sentindo alegres e otimistas, ele nos tentará levar isto a extremos e tornar-nos envolvidos em fanatismo ou presunção, correndo adiante de Deus. E se estamos nos sentindo desanimados e tristes, ele tentará despertar o temor e a desconfiança, para que venhamos a ceder às suas tentações.
Você pode ver isto acontecendo no caso de Elias. Ele foi possuído de alguns sentimentos muito positivos no cume do Carmelo. Chegara o final dos três anos e meio de fome, e com ele a demonstração entre Deus e Baal. Deve ter sido para ele uma tremenda emoção quando o fogo chamejante desceu do céu, consumindo o sacrifício e o altar e a água ao redor. Sua fé era forte. Ele creu que Deus responderia a fim de vindicar a Sua própria honra e o Seu nome diante do povo. Mas que tremendos sentimentos devem ter se avolumado por todo o seu ser ao estar ali e testemunhar o ocorrido!
Depois Elias tomou a dianteira no juízo sobre os 400 profetas de Baal, o que certamente exigiu muito esforço de seu sistema nervoso! Seu coração deve ter sido dilacerado de tristeza, horror e agonia ante a tarefa que foi levado a desempenhar.
Em seguida ele foi ao cume da montanha e começou a orar por chuva. Esta não veio imediatamente como o fogo do céu, e Elias ficou cheio de desconfiança própria. Ficou ali no topo da montanha, esquadrinhando o coração e continuando a insistir em suas petições até que seu servo voltou e relatou sobre uma pequena nuvem no horizonte. Isto era tudo. Elias se levantou e correu adiante dos carros de Acabe todo o caminho de volta para a cidade – a primeira maratona!
Quando Elias foi dormir naquela noite em um calmo canto fora dos muros da cidade com seu manto enrolado em torno de si, deve ter estado tão emocionalmente esgotado como nenhum outro poderia estar. Estava também fisicamente exausto. Seus sentimentos devem ter sido despedaçados durante todo aquele longo e memorável dia. Agora o diabo se apressou para tirar vantagem dos sentimentos que não eram pecaminosos, a fim de levá-lo a sentimentos que eram.
Elias foi despertado abruptamente e alisado de que Jezabel estava a postos para tirar-lhe a vida. A esta altura seu cansaço, fome e tristeza se transformaram em temor. Ele cruzou a linha para o território do diabo. O temor obtém más notas nas Escrituras. Leia isto em Apocalipse 21:8. Os temerosos estão entre aqueles que terão o seu lugar no lago de fogo, juntamente com alguns companheiros muito sórdidos. Apesar da vigorosa fé que o havia sustido nas horas anteriores do dia, Elias agora deu lugar a cego pânico e se dispôs a salvar-se a si mesmo. Fugiu para o deserto, abandonando seu posto do dever, tentando escapar das ameaças de Jezabel. Estava tão desanimado que acabou pedindo a morte, pensando ser o único que havia ficado em Israel fiel a Deus. Que contraste entre o temeroso e fugitivo Elias e o Elias do cume do monte Carmelo que bradou às multidões: "Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-O." I Reis 18:21.
Assim uma indicação de que seus sentimentos são ou não procedentes da convicção do Espírito Santo ou da sua própria natureza humana deve ser examinada, levando-se em conta se os sentimentos são ou não pecaminosos. O Espírito Santo jamais conduzirá através de sentimentos pecaminosos, não seria seguro afirmar? Diz II Timóteo 1:7: "Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação."
Outro aspecto a considerar, ao tentar determinar se os seus sentimentos são ou não simplesmente sentimentos, ou as impressões do Espírito Santo sobre o coração, é olhar para a diferença entre convicção e culpa. A culpa sempre procede do diabo. A convicção sempre provém do Espírito Santo. À primeira vista, estes dois podem parecer muito semelhantes. Mas a culpa sempre nos deixa desesperançados e desesperados. Quando o diabo nos assalta com a culpa, ele está tentando levar-nos a perder a esperança e a dar-nos por vencido, tentando levar-nos a concluir que o nosso caso é irremediável.
Por outro lado, a convicção que procede do Espírito Santo vem com esperança e coragem para enfrentar o amanhã. Nunca nos deixa em desespero. O Espírito Santo jamais nos leva à condição de convicção e reconhecimento de nossa profunda necessidade da graça divina, sem também levar-nos além desta condição, à solução encontrada no sacrifício de Jesus e Sua justiça a ser aceita em nosso favor. O Espírito Santo traz convicção, jamais condenação.
Outro fator a ser considerado ao tentarmos distinguir entre nossos próprios sentimentos e as impressões ou convicções do Espírito Santo é a questão de quem é o centro focalizado. Nossos sentimentos podem levar-nos a pôr os nossos interesses em primeiro lugar e focalizar nossa atenção sobre o que é melhor para nós. O Espírito Santo nos levará a fazer da glória e honra de Deus e das necessidades daqueles que estão ao nosso redor a primeira consideração.
João Batista tinha fortes sentimentos contra estar na prisão de Herodes. Estava acostumado a espaços amplamente abertos, tendo liberdade de ir e vir como bem lhe aprouvesse. Estivera acostumado a uma vida de atividades. Não estava mais satisfeito com ser aprisionado no escuro cárcere do que teria estado eu ou você. Se ele tivesse posto suas necessidades em primeiro lugar, teria rapidamente se retratado de suas severos reprovações e recuperado a liberdade. Mas ele pôs de lado seus próprios desejos, porque a lealdade a Deus exigia que ele falasse a verdade com destemor e deixasse com Deus as conseqüências de tal fidelidade. Pôs em primeiro lugar a glória e a honra de Deus, e a despeito da solidão e isolamento de sua vida na prisão, ele foi capaz de dizer: "Convém que Ele cresça e que eu diminua.'' S. João 3:30.
Podemos às vezes ser capazes de ver a diferença entre nossos sentimentos e as impressões do Espírito Santo aplicando o teste da razão e do juízo. Podemos ser capazes de raciocinar de causa para efeito, de reconhecer quando estamos especialmente cansados ou sofrendo dos efeitos de extremo estresse. E Deus quer que exerçamos o bom discernimento e o bom senso nas decisões da vida.
Mas a razão e o juízo podem não ser suficientes. Algumas das ações mais insensatas de toda a Bíblia foram praticadas por aqueles que estavam mais intimamente sob o controle de Deus. O que dizer de Gideão, atacando o inimigo com cântaros e tochas e 300 homens? O que dizer de Jônatas e seu escudeiro enfrentando sozinhos todo um exército? O que dizer de Davi, trajando as simples vestes de um menino pastor, saindo desarmado para enfrentar o gigante Golias, que estava coberto de armadura da cabeça aos pés? Ou de Josué, tentando tomar uma cidade caminhando em círculos ao redor da mesma e fazendo soar as trombetas?
Se estivermos sob o controle de Deus e em sintonia com a Sua direção de nossa vida, Ele pode às vezes levar-nos a fazer coisas que aparentemente estão em completo desacordo com o bom senso e o senso comum. Assim, embora a razão e o juízo devam ser considerados, eles jamais podem ser uma prova final em prol ou contra a orientação divina.
Podemos ser capazes de distinguir entre os simples sentimentos e as impressões do Espírito Santo aplicando o teste do tempo. Se há tempo antes que a decisão deva ser tomada, pode ser de real valor "consultar o travesseiro" quanto a ela, a fim de dar tempo à oração e meditação para determinar a fonte dos impulsos. Mas mesmo o teste do tempo pode não ser adequado. Pode não haver tempo suficiente para dar tal teste! O que dizer de Finéias, quando Israel estava prestes a atravessar o rio rumo à Terra Prometida? O plano de Balaão para amaldiçoar a Israel alcançara êxito e a rebelião tinha se tornado tão difundida que um dos líderes de Israel veio para o acampamento em plena luz do dia acompanhado por uma prostituta moabita e a levou abertamente para sua tenda.
Finéias, filho do sumo sacerdote, não foi para casa a fim de refletir sobre isto e certificar-se de que não estava sendo impulsivo. Dirigiu-se à tenda e traspassou a ambos com um golpe de sua lança!
Maria Madalena, naquela noite no banquete de Simão, não tomou tempo para esperar até ao dia seguinte para ver se o impulso de ungir a Jesus estava ainda por perto. Se tivesse feito isto, a oportunidade de ungir a Jesus não mais teria estado disponível. Quando o Espírito Santo impeliu Maria à ação, ela obedeceu instantaneamente.
Não podia explicar por que havia escolhido aquela ocasião para honrar a Jesus. Quando começaram as acusações, ela ficou muda. Mas Jesus reconheceu o seu ato de amor e fez uma interessante promessa concernente ao mesmo. Ele afirmou que onde quer que o evangelho fosse pregado, enquanto o tempo durasse, a história da ação de Maria também seria repetida – e só aqui se fala em mais tempo.
Assim há certas coisas que podemos considerar quando tentamos verificar se nossos
sentimentos são meramente sentimentos, ou se eles são inspirados pelo Espírito Santo. Podemos considerar se eles são sentimentos pecaminosos. Podemos estar cientes da diferença entre culpa convicção. Podemos verificar se o centro de atenções está em nós mesmos ou na honra e glória de Deus. Podemos aplicar o teste da razão e do juízo – em um ponto. Podemos admitir o teste do tempo – Quando há tempo para tal teste.
Mas o maior auxílio no reconhecimento da diferença entre simples sentimento e a voz interior do Espirito é conhecer a Deus. Como notamos no capítulo anterior, de S. João 10, as ovelhas reconhecem a voz do Pastor e distinguem esta voz da voz de um estranho, porque elas O conhecem.
Abraão conhecia a Deus. Havia passado tempo lá fora sob as estrelas, comungando com o Deus do Céu, enquanto o resto do seu mundo estava adormecido. Quando Deus veio a ele e lhe ordenou que deixasse para trás o seu país e a sua parentela e fosse a algum destino desconhecido, ele foi avante, porque reconhecia a voz de Deus de seus contatos anteriores. Não se deixou levar pelos sentimentos. Foi guiado pelo que sabia ser as instruções divinas.
Perto do final de sua vida, quando chegou o tempo da prova suprema, ele foi incapaz de ir pelos sentimentos. Tudo em seu coração de pai resistia à ordem de oferecer Isaque em sacrifício. Todas as suas esperanças e sonhos, todas as promessas de Deus feitas no passado, argüíam contra tal plano. Mas ele conhecia a voz de Deus e, desconsiderando seus sentimentos, a despeito de quão fortes eram, ele agiu novamente de acordo com a palavra do Senhor.
Como você sabe, Abraão ouviu corretamente a voz de Deus, e quando foi plenamente provado, também foi provido um glorioso livramento, dando uma lição que falará através de todo o tempo e a todo o Universo, do amor de Deus em enviar Seu Filho para morrer em nosso lugar.
Assim, quando importa em conhecer a vontade de Deus em nossa vida, é importante não decidir simplesmente à base do sentimento. É importante considerar todos os passos no conhecimento da orientação divina. Mas a maior certeza, atrás de todos os métodos para saber se você está seguindo Sua direção, é conhecê-Lo – e Ele lhe esclarecerá o que inclui Sua vontade para você. Conhecê-Lo, e conhecer a Sua voz, é essencial, se quisermos ter a certeza de que não estamos sendo levados por meros sentimentos.



COMO  CONHECER  A  VONTADE  DE  DEUS

Morris Venden

Título Original em inglês:
HOW TO KNOW GOD'S WILL IN YOUR LIFE

Tradução de Francisca Alves de Pontes

CASA PUBLICADORA BRASILEIRA
Tatuí - São Paulo
 

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