O Sol ainda brilha lá fora

Há dias lembrei-me de um diálogo muito peculiar que tive com um colega de trabalho.

- Grazi, diz-me lá uma coisa, fumas erva!?

- EU!? Claro que não! Não chego nem perto do cigarro, quanto mais erva! 
- A sério,só cá entre nós...fumas erva?
- NÃO! Já te disse que não! Mas, agora explica-me lá uma coisa...o que te leva a crer que eu fumo erva!?
- Bem Grazi, é que tu estás sempre "peace and love", nunca te vejo exaltada com nada: nem com os clientes, nem com os teus colegas, nem com os chefes...enfim, olha para a expressão dos teus colegas: estão a contar os minutos para acabar o dia de trabalho e zarpar o mais rápido possível daqui. Agora olha para ti: estás sempre com essa expressão inexplicável de "happiness". A sério, deves passar os dias sob efeito de erva, só pode!
- Hum...tu não me conheces! Se me conhecesses, não pensarias isto a meu respeito. Eu...bem...como hei-de explicar...eu sou uma "lion", uma "fast furious", mas vou aguentando, mas até um certo limite...
- Ahah ahah... tu!? Ahah, ahah... gostava de ver isso! Ahah ahah... isso é uma piada? Ahah ahah coitadinha... 
- Bem, acredita se quiseres...

E o nosso diálogo terminou por aqui. Não adiantava eu tentar argumentar com um campeão de  boxe (estilo tablete de chocolate) que só conseguia enxergar um "frágil" ser  feminino de 50 kilos" e começar a rir.

Mas esta vida é engraçada, 8 dias depois, eu e "o tablete de chocolate" nos encontramos outra vez, só que agora em circunstâncias um pouco diferentes...
O dia tinha terminado, o grupo de trabalho estava todo reunido em breafing, pairava uma leve tensão no ar e eu não conseguia sorrir ou ter alguma outra expressão amistosa. Eu tinha algo para falar, eu precisava de intervir e a minha timidez tinha evaporado. O meu olhar, outrora vivo e alegre, agora era seco e gelado, pelo que eu evitava olhar diretamente para os meus colegas com receio que eles padecessem instantaneamente de uma hipotermia fatal.

O que me tinham feito? Nada, a mim absolutamente nada! Mas tocaram numa das pessoas que mais amo nesta vida. E isso, era mais que suficiente para despertar a "fast furious adormecida" que existe dentro de mim.
Quando foi a minha vez de intervir, eu não sei se os meus superiores e colegas ficaram petrificados com o que eu disse e como o disse, ou se foi o meu olhar de reprovação que os deixaram espantados e bloqueados. O "campeão de boxe" perdeu o sorrisinho de auto-confiança,oriundo dos seus músculos cuidadosamente esculpidos, e mais parecia " que tinha visto um fantasma".

Dias depois, eu e "o tablete" nos voltamos a encontrar. Eu continuei a ter a postura da "Grazi peace and love" (pois, a advertência que eu fiz foi limitada a um tempo, espaço e pessoas determinadas), mas o meu colega...bem...ele mudou um pouco a sua postura para comigo.


- Tinhas razão Grazi. Tu és tipo "Hulk", a personagem do filme. Quando vês injustiças, transformas-te! (E simulou a cena do filme em que a personagem rasga a camisola e dá um grande berro: Grrrrrr).

- Ahah ahah ahah (Agora foi a minha vez de cair na gargalhada).
- A sério...estou a falar a sério! Tu não precisas de ajuda de ninguém para te defender. Aliás, acho que quando eu tiver metido em algum sarilho, vou te chamar para me ajudares....
- Ahah aha ahah (Agora sim, isto era a melhor piada daquele dia!)

Mas tirando casos excepcionais (de injustiça com pessoas que eu amo e a injustiça praticada em geral), eu encaixo-me no tipo de pessoa "balão", ou seja, para não ser desagradável vai aguentando, aguentando, aguentando... até rebentar.
Se isto é bom? Não! Se eu gostaria de ser diferente? Sim, sem dúvida!

Um dia destes cheguei em casa em estado pré-erupção:
"Mas como é que é possível as pessoas serem tão ruins, tão mázinhas sem dó nem piedade? Credo! Será que vale a pena pagar com bem àqueles que gratuitamente nos tratam com arrogância, mal-educação e falta de civismo?"
Foi então que, numa daqueles "coincidências da vida ", li um pensamento que teve um impacto imediato na minha vida:
"Cada dia precisamos de subir, pela fé, o monte do Calvário. Ao contemplarmos aquela face macilenta, aquela fronte ensanguentada e ouvirmos: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem", não resistiremos. A nossa alma curvar-se-ia diante do Homem de dores. E, à semelhança do centurião e dos que com ele guardavam Jesus, seremos impelidos a exclamar: Verdadeiramente este é o Filho de Deus. A Ele sempre seremos gratos e submissos." (A
Esperança do Terceiro Milénio de Rubens Lessa)
Ao olhar para "O Homem da Cruz" toda aquela dolorosa interrogação deu lugar a uma paz inexplicável. Jesus entregou a sua vida para remissão dos pecados de toda a humanidade (tanto "os bons" como os maus) e nos últimos minutos da sua vida ainda pediu a Deus perdão por aqueles que o ofendiam. Face a isto, o que são algumas farpas comparadas com o sofrimento do nosso Mestre?
Muitas pessoas agem de uma maneira hostil porque são "mal-amadas", ainda não experimentaram o poder do verdadeiro amor. Pois, quando uma pessoa ama e se sente amada, o que ela mais quer é ser feliz e fazer as pessoas à sua volta felizes! 
Nesse dia, enxuguei as lágrimas e agradeci a Deus porque, apesar de algumas pedras no caminhos, existem tantas "flores" que eu amo e me fazem sentir amada! E sabem que mais? O sol ainda brilha lá fora...

Graziela Pagani

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