26 de novembro de 2014

Quem foi o faraó do Êxodo?


Luiz Gustavo Assis
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Faraós não eram conhecidos por sua humildade ou pequenos atos, mas sim pelas batalhas e vitórias alcançadas com inteligência e força. Nas paredes de templos e palácios do antigo Egito podem ser vistas cenas de tais vitórias. E com elas, podem ser lidas inscrições em que o monarca orgulhosamente afirma sua superioridade diante do exército adversário.Por causa desta ideologia triunfalista, os egípcios nunca admitiam derrota. Não apenas eles, mas os reis dos povos da Crescente Fértil, que também é chamada de Antigo Oriente Médio, dificilmente reconheciam um fracasso numa campanha militar ou a contenção de uma revolta em seu império. Por exemplo, em determinado momento do seu reinado, o faraó Ramsés II arregimentou suas tropas para lutar contra um império rival, os Hititas, que dominavam parte do que conhecemos hoje como Turquia e Síria e na ocasião eram liderados pelo rei Muwatallis. A batalha de Kadesh, como ficou posteriormente conhecida, se tornou célebre. Temos tanto a versão egípcia de como ela foi, bem como a hitita. Ambas as versões clamam vitória nesse confronto. Não sabemos quem ganhou a batalha de Kadesh. Dificilmente um governante do mundo antigo reconheceria uma derrota.
Havia uma outra prática nessa batalha ideológica. O rei derrotado era geralmente deixado sem nome nos textos, como uma forma de humilhação. Eis alguns exemplos:
a) Quando o Faraó Thutmoses III, em Megido, sufocou uma rebelião iniciada pelo rei de Kadesh, ele se refere a este rei como “aquele miserável rei de Kadesh”, ou “aquele miserável rei”;
b) Numa cena em que Seti I pode ser visto perseguindo o rei dos Hititas e o acertando com flechas, as 20 linhas de texto descrevendo a batalha não mencionam o nome do rei derrotado;
c) Nos poemas e descrições militares de Ramsés II da já mencionada batalha de Kadesh, em nenhum momento o rei hitita é mencionado pelo nome, mas sempre referido como “o inimigo de Hati” (como império hitita também era chamado) ou “o miserável rei de Hati”.
Ao que parece, essa prática de não nomear o rei derrotado foi adotada pelo autor do livro de Êxodo, Moisés. Nos quinze capítulos iniciais da obra, o(s) faraó(s) jamais é(são) mencionado(s) pelo nome. Alguns (muitos, eu diria) tomam essa ‘falta de objetividade histórica’ para afirmar que a história dos israelitas no Egito não passa de uma ficção criada pela elite sacerdotal nos dias do rei Josias, rei de Judá, no sétimo século a.C., durante sua reforma religiosa. Sendo assim, por que tal documento seguiu uma prática egípcia (não nomear o rei derrotado) que não era mais utilizada nos dias de Josias e bem diferente daquela que os babilônicos e assírios seguiam?1 Nesse ponto, a história do Êxodo parece apontar para um período mais próximo dos eventos que ali são narrados.
O autor de Êxodo sabia o nome do faraó da ocasião?2 Eu creio que sim. Ele sabia o nome das parteiras que ajudaram as mulheres hebreias, Sifrah e Puah (Êx. 1:15)! Tal omissão foi deliberada. Os quinze capítulos iniciais de Êxodo são uma batalha ideológica entre Yahweh, o Deus dos israelitas, e faraó, o rei divino egípcio. Quando confrontado por Moisés pela primeira vez para deixar seu povo abandonar a casa da servidão, em Êxodo 5:1-2, o monarca egípcio arrogantemente pergunta: “Quem é o Senhor para que eu obedeça a sua voz para deixar Israel ir? Eu não conheço o Senhor, e também não deixarei Israel ir.” Se Faraó não conhecia a Deus, Moisés fez questão de apresentá-Lo nos capítulos seguintes. A pergunta não deveria ser “quem foi o faraó do Êxodo?”, mas sim “Quem é o Deus do Êxodo?”, e a resposta para essa pergunta está na sua Bíblia.

Luiz Gustavo Assis e Marina Garner

FÉ RACIONAL

Arqueologia bíblica e filosofia.

Perfil do autor

Bacharel em Teologia pelo UNASP C2 (2007). Trabalhou como Capelão e Professor de Ensino Religioso no Colégio Adventista de Esteio, RS, e como Pastor Distrital em Caxias do Sul e em Porto Alegre, RS. Atualmente está fazendo seu mestrado em Arqueologia do Oriente Médio e Línguas Semíticas na Trinity International University, nos EUA. Marina Garner é Mestrando em Filosofia da Religião na Trinity International University e Bacharel em Teologia pelo UNASP C2 (2009). Sua área de pesquisa é Filosofia da Religião.

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1 Babilônios e assírios documentavam todos os detalhes de suas batalhas, inclusive o nome dos reis derrotados. Muitos céticos rejeitam as histórias bíblicas, principalmente o Êxodo, devido à falta de evidências diretas que as comprovem. No caso do Êxodo, existem diversas evidências indiretas que reconstroem bem o ambiente histórico que o autor bíblico descreve ali. Meu professor James K. Hoffemeir é um dos principais pesquisadores na área com dois livros publicados sobre o assunto, “Israel in Egypt: The Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition” (Oxford University Press, 1996), e “Ancient Israel in Sinai: The Evidence for the Authenticity of the Wilderness Tradition” (Oxford University Press, 2005). Ambos sem previsão de publicação em língua portuguesa.
2 Aqueles que defendem a realidade histórica do Êxodo estão divididos em duas datas: uma durante a 18a dinastia (ca. 1450), com base em 1 Reis 6:1, e tendo mais de um Faraó como candidato (Thutmoses III/IV), e outra data durante a 19a dinastia (ca. 1260 a.C.), tendo Ramsés II como o Faraó da história. Como o artigo não é sobre a data do Êxodo não entrarei em maiores detalhes sobre a discussão envolvendo as duas datas.

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