Lições de Vida: O chamado para o discipulado

VERSO PARA MEMORIZAR:


“Dizia a todos: Se alguém quer vir após Mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-Me” (Lc 9:23).





“Discípulo” significa seguidor ou aluno. A palavra ocorre mais de 250 vezes na Bíblia, em sua maior parte, mas não exclusivamente, nos evangelhos e em Atos.


O fato de sermos discípulos fortalece o espírito, desafia a mente e exige o máximo de nós em nosso relacionamento com Deus e com o próximo. Sem lealdade total a Cristo e às exigências de Sua vida e de Sua mensagem não pode haver discipulado. Que chamado mais elevado pode haver?


“Deus toma os homens tais quais são e os educa para Seu serviço, uma vez que se entreguem a Ele. O Espírito de Deus, recebido na alma, vivifica-lhes todas as faculdades. Sob a direção do Espírito Santo, o intelecto que se consagra sem reservas a Deus desenvolve-se harmonicamente, e é fortalecido para compreender e cumprir o que Deus requer. O caráter fraco e vacilante muda-se em outro forte e firme. A devoção contínua estabelece uma relação tão íntima entre Jesus e Seu discípulo, que o cristão se torna como Ele em espírito e caráter” (O Desejado de Todas as Nações, p. 251).


Nesta semana veremos como Jesus chamou aqueles que iriam segui-Lo e que lições podemos aprender para nos ajudar em nossa continuação da obra que Ele iniciou na Terra.



Pescadores de homens




Simão e André haviam labutado a noite toda. Pescadores experientes, conheciam a arte de pescar e sabiam quando parar. O trabalho da noite toda não havia rendido nada. Em meio ao desapontamento, veio uma ordem inesperada: “Faze-­te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar” (Lc 5:4). A resposta de Simão foi de desânimo e de angústia: “Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos, mas sob a Tua palavra lançarei as redes.” (v. 5).


Quem é esse carpinteiro que está dando conselhos sobre pesca a um pescador? Simão poderia ter rejeitado o conselho, mas seria possível que a pregação consoladora e autêntica de Jesus, feita anteriormente, tivesse algum efeito? Portanto, ele deu a resposta: “Mas, sob a Tua palavra.”


Assim, temos a primeira lição do discipulado: obediência à Palavra de Cristo. André, João e Tiago também logo aprenderam que a noite longa e infrutífera havia dado lugar a uma aurora brilhante e surpreendente, em que grande quantidade de peixes foi apanhada. Imediatamente, Pedro caiu de joelhos e exclamou: “Senhor, retira-Te de mim, porque sou pecador” (v. 8). O reconhecimento da santidade de Deus e da própria pecaminosidade é outro passo essencial no chamado para o discipulado. Assim como Isaías (Is 6:5), Pedro deu esse passo.



1. Leia Lucas 5:1-11, Mateus 4:18-22 e Marcos 1:16-20. Considere o milagre, o espanto dos pescadores, a confissão de Pedro e a autoridade de Jesus. O que cada um desses relatos diz sobre a senda do discipulado?
O discípulo precisa deixar tudo para seguir a Cristo, precisa sentir sua própria pecaminosidade e sua incapacidade para a tarefa, precisa confiar em Cristo quantos aos futuros resultados de sua decisão e saber que nunca estará sozinho. 



“Não temas; doravante serás pescador de homens” (Lc 5:10). A transição de pescadores comuns para pescadores de homens é extraordinária: requer absoluta entrega ao Mestre, reconhecimento da própria incapacidade e pecaminosidade, o estender a mão a Cristo, pela fé, em busca de forças para trilhar a solitária e desconhecida senda do discipulado e contínua confiança em Cristo e somente nEle.


A vida de um pescador é incerta e perigosa, na luta contra ondas cruéis, na insegurança de uma renda incerta. A vida de um pescador de homens não é diferente, mas o Senhor promete: “Não temas.” O discipulado não é um caminho fácil; tem seus altos e baixos, suas alegrias e desafios, mas um discípulo não é chamado a andar sozinho. Aquele que disse: “Não temas” está ao lado do discípulo fiel.



Leia novamente a confissão de Pedro sobre o fato de ser um pecador. Note como sua pecaminosidade o levou a querer separar-se de Jesus. O que há no pecado que faz isso conosco, isto é, que nos afasta para longe de Deus?


A escolha dos Doze




O discipulado não é algo produzido pela própria pessoa; é resultado de responder ao chamado de Jesus. Lucas menciona que Jesus chamou Pedro, André, João e Tiago (Lc 5:11) e Levi Mateus, o coletor de impostos (v. 27-32). Então, o escritor coloca a escolha dos Doze numa localização estratégica em sua narrativa: imediatamente após a cura, no sábado, de um homem com a mão ressequida 
(Lc 6:6-11), que levou os fariseus a tramarem o assassinato de Jesus. O Senhor sabia que era hora de consolidar Sua obra e formar uma equipe de obreiros que Ele pudesse treinar e preparar para a tarefa que viria após a cruz.



2. Leia Lucas 6:12-16; 9:1-6. O que esses versos nos dizem sobre o chamado dos doze apóstolos?
Que Jesus os chamou para um propósito especial de continuar Sua obra, e que a escolha deles não se deveu a qualquer qualidade especial que tivessem, pois eram homens comuns. 



Entre as multidões que seguiam Jesus, havia muitos discípulos, isto é, pessoas que O seguiam como alunos seguem um mestre. Mas a tarefa de Cristo envolvia muito mais que ensinar. Sua tarefa era construir uma comunidade de pessoas redimidas, uma igreja que levasse Sua mensagem salvadora aos confins da Terra. Para esse propósito, Ele precisava de pessoas que fossem mais que discípulos. “Escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos” (Lc 6:13). “Apóstolo” significa alguém enviado com uma mensagem especial e para um propósito especial. Lucas usou a palavra seis vezes no evangelho e mais de 25 vezes em Atos (Mateus e Marcos a usaram apenas uma vez cada um).


Os Doze foram escolhidos não por causa de sua educação, antecedentes econômicos, posição social, distinção moral, ou qualquer coisa que os assinalasse como dignos de ser escolhidos. Eles eram homens comuns, em circunstâncias comuns: pescadores, coletores de impostos, um zelote, um questionador que tinha dificuldades para crer e um que acabou se tornando traidor. Foram chamados apenas para um propósito: ser embaixadores do Rei e de Seu reino.


“Deus toma os homens tais como são, com os elementos humanos de seu caráter, e os prepara para Seu serviço, caso queiram ser disciplinados e dEle aprender. Não são escolhidos por serem perfeitos, mas apesar de suas imperfeições, para que, pelo conhecimento e observância da verdade, mediante a graça de Cristo, se possam transformar à Sua imagem” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 294).



Vamos admitir: não somos perfeitos e os demais membros da igreja também não são. Todos estamos em um processo de crescimento. Nesse ínterim, como podemos aprender a trabalhar com os outros e a aceitá-los como são? 

 

Comissionando os apóstolos




3. Leia Lucas 9:1-6 e Mateus 10:5-15. Que verdades espirituais podemos aprender com esses versos a respeito da maneira como Jesus chamou esses homens?
Aqueles que foram chamados devem atender ao chamado e estar juntos para cumprir o propósito de Cristo; devem receber poder de Cristo, já que Seus recursos naturais são insuficientes para o desempenho da missão; e, como os apóstolos foram enviados a pregar e curar, os que são chamados devem dar atenção à pessoa como um todo, tanto no aspecto físico quanto no espiritual.



Lucas descreveu o comissionamento dos apóstolos como um processo de três etapas.


Primeiro, Jesus os “reuniu” (Lc 9:1, NVI), isto é, chamou-os para que estivessem juntos. O verbo “chamar”, ou o substantivo “chamado”, é tão vital para a missão cristã quanto para o vocabulário cristão. Antes que ele possa se tornar um termo teológico, precisa se tornar uma experiência pessoal. Os apóstolos precisaram ouvir Aquele que os chamava, ir a Ele e ficar juntos. Tanto a obediência Àquele que chama como a entrega de tudo a Ele são necessárias para se experimentar a unidade que é essencial para o sucesso da missão.


Em segundo lugar, Jesus “deu-­lhes poder e autoridade”. Jesus nunca envia Seus emissários de mãos vazias. Ele também não espera que sejamos Seus representantes em nossa própria força. Nossa educação, cultura, status, riqueza ou inteligência são impotentes para realizar Sua missão. É Cristo quem prepara, qualifica e capacita. A palavra grega para “poder” é dynamis, da qual derivamos “dínamo”, uma fonte de luz, e “dinamite”, uma fonte de energia que pode cavar um túnel numa montanha. O poder e a autoridade que Jesus dá é suficiente para esmagar o diabo e derrotar seus propósitos. Jesus é nosso poder. “Colaborando a vontade do homem com a de Deus, ela se torna onipotente. Tudo que deve ser feito a Seu mando pode ser cumprido por Seu poder. Todas as Suas ordens são promessas habilitadoras” (Parábolas de Jesus, p. 333).


Em terceiro lugar, Jesus “os enviou a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos” (Lc 9:2). A pregação e a cura vão juntas, e a missão dos discípulos é restaurar integralmente a pessoa: corpo, mente e alma. O pecado e Satanás subjugaram todo o ser, e a pessoa toda precisa ser colocada sob o poder santificador de Jesus.


A vida de discipulado pode ser mantida somente quando é inteiramente entregue a Cristo, sem nada que se interponha. Nem ouro nem prata, nem pai nem mãe, nem esposa nem filho, nem vida nem morte, nem as circunstâncias de hoje nem as emergências do amanhã podem se interpor entre o discípulo e Cristo.


O que realmente importa é Cristo, Seu reino e o testemunho que deve ser dado a um mundo perdido.



“Nada leveis para o caminho” (Lc 9:3). Que princípio ali expresso é importante compreendermos e experimentarmos por nós mesmos?


O envio dos Setenta




4. Leia Lucas 10:1-24. O que esse relato do envio dos Setenta nos ensina sobre a obra de ganhar pessoas em meio à realidade do grande conflito?
Que essa missão deve ser feita no nome de Jesus e em Seu poder; que cada pessoa ganha é uma derrota para Satanás e uma vitória para Deus que é comemorada nos Céus.



Mais de 12 discípulos seguiram Jesus durante Seu ministério. Quando Pedro se dirigiu aos crentes a fim de que escolhessem um substituto para Judas, o grupo consistia em pelo menos 120 discípulos (At 1:15). Paulo nos diz que, por ocasião de Sua ascensão, Jesus tinha mais de 500 seguidores (1Co 15:6). Assim, o envio dos Setenta não limita o número de discípulos que Jesus tinha, mas apenas sugere Sua escolha de um grupo especial para a missão específica de ir adiante dEle às cidades da Galileia preparar o caminho para Suas visitas subsequentes.


Somente o evangelho de Lucas registra o relato dos Setenta, o que é muito típico de Lucas, que tinha mente missionária. O número 70 é simbólico na Bíblia, bem como na história judaica. Gênesis 10 alista 70 nações do mundo como descendentes de Noé, e Lucas foi um escritor com uma visão global do mundo. Moisés nomeou 70 anciãos para auxiliá-lo em sua obra (Nm 11:16, 17, 24, 25). O Sinédrio era composto de 70 membros. A Bíblia não menciona se esses números tiveram algum significado no fato de Jesus ter chamado 70, e não precisamos nos deter em especulações. Mas o importante é que Jesus, como treinador de líderes para a igreja, deixou-nos a estratégia de não permitir que o poder e a responsabilidade fiquem concentrados em alguns poucos, mas que sejam estendidos por todo o espectro dos discípulos.


A alegria e a realização marcaram o retorno dos Setenta. Eles relataram a Jesus: “Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo Teu nome!” (Lc 10:17). O sucesso na conquista de pessoas nunca é obra do evangelista. O evangelista é apenas um agente. O sucesso vem por meio do “[Seu] nome”. O nome e o poder de Jesus estão no âmago de toda missão evangélica bem-sucedida. Mas observe três reações notáveis de Jesus ao sucesso da missão dos Setenta. A primeira foi que, no sucesso do evangelismo, Jesus viu uma derrota de Satanás (v. 18). A segunda é que, quanto mais envolvido na obra do evangelho alguém esteja, mais autoridade é prometida (v. 19). E a terceira é que a alegria do evangelista não deve estar no que é realizado na Terra, mas no fato de seu nome estar escrito no Céu (v. 20). O Céu se regozija em toda pessoa arrebatada das garras de Satanás e toma nota de cada uma delas. Toda pessoa ganha para o reino é um golpe nos planos de Satanás.



Leia novamente Lucas 10:24. Quais são algumas das coisas que temos visto e que os profetas e reis desejaram ver mas não conseguiram? O que isso deve significar para nós? 

O custo do discipulado




Sócrates teve Platão. Gamaliel teve Saulo. Líderes de várias religiões tiveram seus seguidores devotos. A diferença entre o discipulado em tais casos e o discipulado de Jesus é que o primeiro está fundamentado no conteúdo da filosofia humana, enquanto que o último está arraigado na pessoa e nas realizações do próprio Jesus. Assim, o discipulado cristão não repousa apenas nos ensinos de Cristo, mas também no que Ele fez pela salvação humana. Portanto, Jesus ordena a todos os Seus seguidores que Se identifiquem plenamente com Ele, que tomem sua cruz e O sigam onde Ele os guiar. Não há discipulado cristão sem que as pessoas andem nas pegadas do Calvário.



5. Leia Lucas 9:23-25; Mateus 16:24-28; Marcos 8:34-36. Qual é a mensagem fundamental desses textos para qualquer pessoa que afirme ser cristã?
Ninguém é um verdadeiro discípulo se não se negou a si mesmo, não foi crucificado com Cristo e não está seguindo somente a Cristo.



O discipulado cristão é um elo operativo entre a pessoa salva e o Salvador; pelo fato de sermos salvos, devemos seguir o Salvador. Assim, Paulo pôde dizer: “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2:19, 20).


O custo do discipulado é definido em Lucas 9:23: “Se alguém quer vir após Mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-Me.” Note estas palavras imperativas: “negue”, “tome” e “siga”. Quando lemos que Pedro negou Jesus, não poderíamos ter melhor definição de “negar”. Pedro estava dizendo: “Não conheço Jesus.” Portanto, quando o chamado para o discipulado exige que eu negue a mim mesmo, preciso ser capaz de dizer que eu não me conheço; o eu está morto. Em seu lugar, Cristo precisa viver (Gl 2:20). Em segundo lugar, tomar a cruz diariamente é um chamado a experimentar a crucifixão própria em base contínua. Em terceiro lugar, seguir exige que o foco e o direcionamento da vida seja Cristo, e Ele somente.


Jesus expande ainda mais o custo do discipulado, como é revelado em Lucas 9:57-62: nada tem precedência sobre Jesus. Ele, e Ele somente, ocupa o lugar supremo na amizade e no companheirismo, no trabalho e na adoração. No discipulado cristão, a morte para o eu não é uma opção; é uma necessidade. “Quando Cristo chama alguém, ordena-lhe que venha e morra. […] É a mesma morte todas as vezes – a morte em Jesus Cristo, a morte do velho homem diante do Seu chamado. […] Somente aquele que está morto para sua própria vontade pode seguir a Cristo” (Dietrich Bonhoeffer, The Cost of Discipleship [O custo do discipulado]. New York: The Macmillan Co., 1965; p. 99).

Estudo adicional



“O ato de erguer a cruz separa a pessoa do seu egoísmo, e põe o ser humano em condições de aprender a levar os fardos de Cristo. Não podemos seguir a Cristo sem usar Seu jugo, sem erguer a cruz e carregá-la após Ele. Caso nossa vontade não esteja em harmonia com as reivindicações divinas, temos que renunciar às nossas inclinações, abandonar nossos acalentados desejos, e seguir os passos de Cristo” (Filhos e Filhas de Deus [MM 1956/2005], p. 69).



Perguntas para reflexão



1. Examine Lucas 10:24. Quais são algumas coisas que nós tivemos o privilégio de testemunhar e que “muitos profetas e reis” gostariam de ter visto mas não conseguiram? Que dizer, por exemplo, do cumprimento de profecias? Pense sobre quanto de Daniel 2, 7 e 8 ainda estava no futuro para muitos desses profetas e reis, mas que hoje são fatos históricos para nós. Em que mais você pode pensar?


2. Jesus falou sobre alguém ganhar o mundo inteiro e perder sua alma. O que Ele quis dizer com isso? Ou o que quis dizer com alguém perder a vida a fim de salvá-la? O que isso significa? Uma coisa é um descrente apegar-se egoisticamente às coisas deste mundo, já que isso é tudo o que ele acha que tem. A que mais ele iria se apegar? Mas, entre os seguidores de Jesus, aqueles que sabem que este mundo vai terminar e que um novo mundo vai ter início um dia, por que nos achamos tão prontos a procurar obter o máximo que podemos deste mundo? Como podemos nos proteger dessa armadilha espiritual?


3. Leia Lucas 10:17-20. Podemos entender a euforia dessas pessoas quando viram que até os demônios se sujeitavam a elas em nome de Jesus. Veja a resposta de Jesus a elas. O que Ele estava dizendo que é tão importante que qualquer pessoa envolvida no trabalho missionário entenda?


4. Quais são algumas pessoas, além dos personagens bíblicos, cuja escolha de seguir a Cristo lhes custou muito, talvez mais do que para a maioria de nós?


O que essas pessoas perderam? O que lhes custou seguir a Cristo? Eu estaria disposto a fazer a mesma coisa??


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