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Pais e Filhos: O que é amor incondicional?

 Kenia Amazonita

Sentado à minha frente, na sala do Serviço de Orientação Educacional (SOE), estava um aluno do 2º ano do ensino médio que acabara de ser convidado a se retirar da aula de Geografia. Não era a primeira vez que o desinteresse e excesso de conversa o tinham conduzido até ali. Cabisbaixo, como que esperando uma sentença, deixei que ele ficasse sentado pensando, enquanto eu terminava um relatório no computador. O silêncio da espera foi interrompido com uma interessante pergunta:

- Pró (abreviatura de professora na Bahia), o que é amor incondicional?

No mesmo instante parei de digitar e ainda com as mãos no teclado, virei o rosto para olhar na direção de onde viera a interrogação. Sem que eu tivesse percebido, o aluno havia pegado um livro que estava em cima da minha mesa, mas por necessitar de uma resposta, parara no capítulo 3, cujo o título é “Amor Incondicional”.

Imediatamente deixei o que estava fazendo e iniciamos um papo dialético, em vez de eu responder conceitualmente, prossegui com outra pergunta:
 - Por que você está me perguntando isso?

- É que eu tava olhando esse livro, achei legal a capa, comecei a ler algumas páginas e fiquei com dúvidas... Pensei que... Talvez, minha mãe não me ame... Por isso perguntei.



O livro Como realmente amar seu filho adolescente de Ross Campbell, naquela edição, tinha uma capa interessante e propositadamente ficava à vista na minha sala do SOE. A capacidade do autor em escrever aos pais sobre o amor aos filhos trazia verdades que nem sempre como educadores, na escola, conseguimos expressar, não por falta de convicção ou premissas, mas sim, por falta de oportunidade de olhar no olho de cada pai e dizer: Ame verdadeiramente seu filho; eles estão precisando de amor incondicional; entenda que esse momento de crise vai passar; seja presente na vida de seu filho; o exemplo de casa se faz presente na escola. Por essas e tantas outras coisas que eu, sendo uma orientadora educacional principiante, usava como estratégia aquele livro em cima da mesa.

Eis algumas palavras que disse aquele aluno para responder sua intrigante pergunta: acredito que o  amor é essencial e vital para uma relação sólida na família. O amor incondicional é, conforme Campbell:
  • Amar o filho apesar de tudo. Sua aparência, suas qualidades e defeitos, seus erros e acertos, apesar de sua maneira de agir;
  • Amar incondicionalmente significa: amá-los mesmo quando não gratos;
  • Amar de tal forma que, se preciso for, aja com correção e sanções para o erro, sem raiva do filho;
  • Amar incondicionalmente significa: ser o exemplo em qualquer situação, criando uma estrutura tal que dê sustento emocional ao adolescente, conservando valores morais sadios;
  • Amor incondicionalmente significa: viver o amor em comportamento, não só na expressão verbal – “Eu te amo filho”.

A conversa ficou tão interessante que o som da campainha para o término das aulas nos assustou. Era hora de ir para casa. Então fui surpreendida pela última pergunta daquela manhã:

- Pró, você emprestaria esse livro pra eu levar pra minha mãe ler?
- Por uma semana, tá bom? Respondi
-Valeu minha pró!

Valeu mesmo, na semana seguinte o livro estava na minha mesa com um bilhetinho da mãe agradecendo pelo “empréstimo”. O melhor desse episódio foi notar que aquele adolescente, no turbilhão efervescente de sua vida, mudou o comportamento na escola, as coisas se encaixaram melhor e já não era mais expulso das aulas, participativo nas atividades, com menos brincadeiras e mais estudo e que mesmo com dificuldades, foi aprovado para o 3º ano do ensino médio.

No final do ano, recebi dos pais um forte abraço e convite para o aniversário do filho. Não vou esquecer a alegria da família naquela simples festinha, em comemoração aos 18 anos do filho. Se é que existe conceito para sentimentos, acredito que mesmo em meio às crises, aquela família entendeu o verdadeiro sentido do amor incondicional.

Pais experimentem amar incondicionalmente. Amar os filhos apesar de... Tenho certeza de que seu filho não precisará fazer a pergunta título, porque ela estará vivenciada na família todos os dias.

“(...) e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido. Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e praticamos os seus mandamentos”. I João 5: 1 e 2.

CAMPBELL, Ross. Como realmente amar seu filho adolescente. 6ªed. – São Paulo: Mundo Cristão, 1995.

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