18 de setembro de 2015

Imagine ... se a Bíblia fosse recontada hoje

Toda história tem dois elementos principais. Os acontecimentos (story) e como eles são contados (telling). Os relatos que mais nos fascinam combinam os melhores fatos da vida de um personagem com a forma mais genial de narrativa.
O relato bíblico, apesar de ser um dos mais antigos que conhecemos, usou a melhor tecnologia de seu tempo, o livro, para contar a mais importante história. A utilização inicial de rolos com peles de animais (pergaminho) e posteriormente da imprensa, tornou viável a divulgação e preservação da mensagem judaico-cristã. Por isso, o cristianismo também ficou conhecido como a religião do livro.
Porém, e se as histórias que originalmente foram contadas em livros fossem narradas hoje em quadrinhos, seriados, novelas e filmes? Isto é, e se o story da Bíblia fosse contado com o telling da indústria cultural?

O incrível Sansão

As histórias de super-heróis nasceram basicamente nos quadrinhos. O relato sobre Sansão, por exemplo, renderia um excelente HQ. A história dele tem vários elementos interessantes, como: uma pessoa comum dotada de poderes sobrenaturais; que teve que escolher entre usar ou não sua força para o bem; e que lutou contra seu nêmesis (o vilão e arquirrival), em cenas recheadas de ação e aventura. Porém, a diferença crucial entre o relato bíblico e as histórias produzidas pela Marvel e DC Comics seria a explicação para a força incomum de Sansão. Enquanto o incrível Hulck é fruto do avanço científico, Sansão foi extraordinário porque Deus o escolheu para uma missão.

Cartuns salomônicos

Outro gênero que envolve a narrativa em quadros são os cartuns. As frases curtas, diretas e impactantes de Salomão descritas no livro de Provérbios, por exemplo, combinariam muito bem com ilustrações bem-humoradas e reflexivas das tirinhas. A ironia e o cinismo dos cartuns e das tirinhas encontrariam eco na sutileza e criticidade dos provérbios bíblicos.

Imaginação

Adaptar as narrativas bíblicas para a linguaguem audiovisual é um desafio porque elas são muito enxutas. Enquanto um roteiro de filme tem em média 120 páginas, uma história bíblica no mesmo formato renderia cerca de 40. Na Bíblia, a lista de acontecimentos de uma história aparece pronta, o ponto é que lacunas precisam ser preenchidas. Mesmo com a ajuda de relatos auxiliares, como o de comentários bíblicos, seria necessário recorrer à imaginação e especulação, gerando assim controvérsias sobre o que realmente aconteceu. Vide a polêmica sobre o filme Noé.

A alternativa de C.S. Lewis

Uma solução para retratar as narrativas bíblicas com a extensão que os filmes exigem seria adaptá-las usando metáforas, como as Crônicas de Nárnia. No conto de C.S. Lewis, um Leão, criador da terra de Nárnia, se entrega em sacrifício e depois ressuscita, livrando o mundo das mãos da vilã da história. Narrativas como essa reverberam a figura do Messias e despertam, de um modo criativo e novo, o interesse pela mensagem cristã.

A Bíblia na novela das 8

Talvez o gênero narrativo mais popular no Brasil sejam as novelas. As tramas, geralmente baseadas na história de mulheres que lidam com o amor, o ódio e a vingança, costumam ser desenvolvidas com 30 personagens, em 180 episódios de 50 minutos. Assim como nos filmes, numa narrativa mais longa como essa, seria indispensável criar falas que não estão no texto bíblico. De qualquer maneira, a relação entre Jacó e suas duas esposas, Raquel e Rebeca, parece render uma grande novela das 8.

True evangelista

Apesar de não ter histórias muito detalhadas, a Bíblia tem inúmeros relatos interessantes que renderiam, por exemplo, filmes de arte experimental com o livro de Eclesiastes, uma série de drama no melhor estilo True Detective (lançada este ano pela HBO) com a história do profeta Jonas, e curtas-metragens de comédia com fundo moral baseados em Provérbios. O importante é que essas produções não retratem uma versão higienizada da Bíblia, pintando seus personagens como perfeitos e forçando certas narrativas a ter um final feliz. O caminho parece ser utilizar essas histórias como ponto de partida para a discussão das grandes questões que desafiam a humanidade.
Para que a produção cultural com abordagem cristã seja estimulada e apreciada, é preciso que o público religioso entenda que toda ficção é uma releitura do original. E como tal, tem que ser analisada como uma recriação que, idealmente deveria manter o espírito do relato bíblico. Ou seja, se alguém quer conhecer o ipsis litteris da Bíblia, que leia o livro sagrado, e não espere isso dos produtos culturais.
O ponto é que as últimas séries e filmes com temáticas bíblicas parecem ter aumentado as vendas de Bíblias e a procura de apps sobre o livro sagrado. E quando isso acontece, muitas pessoas são levadas a estudar por si mesmas o texto bíblico e a descobrir nele que nenhuma tecnologia substitui a capacidade imaginativa e reflexiva da mente humana.

Fontes: Allan Novaes, mestre em Comunicação (Umesp) e membro da comissão avaliadora do HQMix; Lizbeth Kanyat, mestre em ficção televisiva pela ESPM; Matheus Siqueira, jornalista e mestre em Cinema; Dr. Milton Luiz Torres, doutor em Arqueologia Clássica pela University of Texas System e pós-doutor em Literatura Antiga (UFMG) e; Natália Maeda, roteirista de filmes.

Autor: Lucas Rocha

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