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Rumo ao porto seguro

Uma reflexão sobre a saga dos cristãos em direção à terra prometida a partir do atual fluxo migratório verificado na Europa  
A saga de milhares de famílias que estão deixando seus países de origem na tentativa de buscar melhores condições de vida na Europa ganhou novo fôlego nas últimas semanas, acentuando o cenário caótico que atinge a região. Segundo informou a BBC Brasil no dia 22 de agosto, “em uma nova operação de resgate de imigrantes ilegais que buscam chegar ao continente pelo Mar Mediterrâneo, mais de 3 mil pessoas foram encontradas na travessia próxima à costa da Líbia”.
Segundo a ONU, somente neste ano, 264 mil imigrantes tentaram entrar ilegalmente na Europa. Muitos deles são refugiados sírios, a exemplo de Mohamed Rostom, que passou pelo Iraque e atravessou a Turquia com sua família antes de chegar à Grécia. Suas palavras traduzem o anseio de muitos de seus conterrâneos e outros grupos que estão dispostos a arriscar a própria vida em busca de novas perspectivas no Velho Continente. “Eu quero ir até a Alemanha para trabalhar. Quero sentir-me seguro, viver como um ser humano”, disse em matéria publicada no G1.
Comparações à parte, essa busca por uma terra melhor e mais segura me fez recordar o relato bíblico da saída dos hebreus do Egito, quando Deus agiu poderosamente para libertá-los da servidão e levá-los à terra da promessa. Primeiro, dez pragas forçaram um faraó obstinado a finalmente permitir que os israelitas deixassem o país. Depois, as águas do Mar Vermelho foram como violentos instrumentos de vingança contra soldados implacáveis que, sob a ordem do insolente rei, queriam manter seus prisioneiros. Horas mais tarde, centenas de corpos inertes na praia foram para Israel um sinal do “grande poder do Senhor contra os egípcios” (Êx 14:31). O sonho de Deus era levá-los à terra de Canaã precisamente após esse episódio, porém sua persistente incredulidade os manteve quarenta anos no deserto.
O livro de Josué fala da chegada dos hebreus à terra de Canaã e a divisão do território. Como afirma Ellen White, “os longos anos de suas vagueações pelo deserto haviam-se findado. Os pés de Israel estavam finalmente a pisar na terra prometida” (Profetas e Reis, p. 355). Ao longo da história da igreja cristã, essa experiência do povo de Israel tem sido usada como prenúncio da experiência do novo Israel. Porém, diferentemente dos imigrantes sírios rumo à Europa, os quais saíram para uma terra que não lhes havia sido prometida e para a qual não lhes foi estendido qualquer convite, estamos seguindo para um lugar que nos pertence por um juramento pronunciado pelo próprio Deus (Hb 6:17-20).
Em uma reunião de despedida com os discípulos, Jesus lhes deu uma garantia que ainda hoje aquece o coração de muitos peregrinos: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, virei outra vez…” (Jo 14:1-3; grifos acrescentados).
Receosas com um possível aumento desordenado da população, as autoridades de alguns países estão preocupadas com o alto fluxo de imigrantes e estão fechando cada vez suas fronteiras, porém, na Canaã celestial há espaço suficiente para todos os refugiados deste mundo.

ADENILTON TAVARES é mestre em Ciências da Religião e professor de grego e Novo Testamento na Faculdade de Teologia da Bahia
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