Lições da Bíblia: Repreensão e represália

VERSO PARA MEMORIZAR: “Cura-me, Senhor, e serei curado, salva-me, e serei salvo; porque Tu és o meu louvor” (Jr 17:14).

"O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol” (Ec 1:9).
Nada novo debaixo do sol? Isso é especialmente verdadeiro no que diz respeito à vida e à obra dos profetas de Deus, que muitas vezes eram chamados a transmitir palavras de advertência e repreensão a pessoas que já sabiam que estavam erradas e que deviam ter outra atitude. Embora procurassem ser fiéis ao chamado, os profetas, na maioria das vezes, enfrentavam forte oposição, e até represálias, frequentemente por parte de líderes espirituais, aqueles que deviam ter sido os primeiros a ouvi-los. Não é de admirar que Jesus tenha dito: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque edificais os sepulcros dos profetas, adornais os túmulos dos justos e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas!” (Mt 23:29, 30).
Nesta semana, começaremos a examinar as provações de Jeremias, cujo ministério pareceu consistir somente em repreensão e represália: ele fazendo a repreensão e os líderes oferecendo a represália.
De 21 a 28 de novembro haverá o evangelismo de colheita. Mais de 4 mil pregadores serão usados por Deus e milhares de pessoas tomarão a decisão pelo batismo. O que você pode fazer para motivar sua igreja e tornar esse movimento um sucesso?


Duas maneiras

Dos primeiros capítulos de Gênesis aos últimos capítulos do Apocalipse, a Bíblia apresenta apenas duas opções de vida: seguir ao Senhor de todo o coração e alma, ou não segui-Lo de forma alguma. Como Jesus disse, em palavras que muitos têm considerado inquietantes: “Quem não é por Mim é contra Mim; e quem comigo não ajunta espalha” (Lc 11:23). Essa é uma declaração muito clara sobre realidades espirituais que estão além do que podemos ver a olho nu ou do que o bom senso parece nos indicar. É o tema do grande conflito em seu nível mais básico. Contudo, num certo sentido, Jesus não estava dizendo nada novo nem radical. Sempre foi assim.
1. Leia Jeremias 17:5-10. Que princípios espirituais básicos encontramos nessa passagem, especialmente à luz do grande conflito entre Cristo e Satanás?

O contexto imediato dessas palavras provavelmente reflita as aproximações políticas de Judá, e o Senhor desejava que seu povo entendesse que seu único socorro estava em Deus, não em potências políticas ou militares. A nação aprenderia isso mais tarde, mas só quando já fosse tarde demais. Embora o Senhor use outras pessoas para nos ajudar, no fim das contas precisamos sempre colocar nossa confiança unicamente nEle. Nunca podemos conhecer ao certo os motivos das outras pessoas, mas sempre podemos saber quais são as intenções de Deus para conosco.
Com boa razão, Jeremias 17:9 nos adverte de que o coração humano é enganoso. O texto hebraico diz que o coração é mais enganoso do que “todas as coisas”. Os horríveis efeitos físicos do pecado, por piores que sejam, não são tão ruins quanto os efeitos morais e espirituais. O problema é que, uma vez que nosso coração já é tão enganoso, não podemos saber, com exatidão, quanto ele é maldoso. Jeremias logo saberia, por si mesmo, quanto as intenções humanas podem ser más.
Como você pode aprender a confiar no Senhor mais do que o fez anteriormente? De que maneira você pode dar um passo de fé agora mesmo e fazer o que é certo aos olhos do Senhor?

O pecado de Judá 

Certamente, a tarefa de Jeremias não seria fácil. Talvez alguém sinta um perverso prazer em apontar os pecados das pessoas, mas a maioria acharia isso uma tarefa muito desagradável, especialmente por causa das reações que suas palavras provocariam. Embora alguns, quando ouvem palavras de repreensão, se arrependam e se reformem, geralmente não é esse o caso, especialmente quando a repreensão é muito forte e incisiva. Na verdade, como ocorre com todos os profetas, as palavras de Jeremias eram exatamente assim: fortes e incisivas!
2. Leia Jeremias 17:1-4. Quais advertências o profeta fez ao povo?
A imagem do pecado gravado no coração é especialmente forte. Ela mostra a profundidade da corrupção. A ideia não é apenas que o pecado esteja escrito ali como algo feito com caneta, mas que está gravado, esculpido com um instrumento. Tudo isso se torna ainda mais forte quando nos lembramos das palavras do Senhor aos ancestrais de Judá: “Se deres ouvidos à voz do Senhor, teu Deus, guardando os Seus mandamentos e os Seus estatutos, escritos neste livro da lei, se te converteres ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma” (Dt 30:10; comparar com Sl 40:8; Jr 31:33). A partir do coração eles deviam amar o Senhor e obedecer à Sua lei; então, em vez disso, o que estava gravado no coração deles era seu pecado, a transgressão dessa lei (1Jo 3:4).
“Que ninguém que declare ser depositário da lei de Deus se vanglorie com o pensamento de que o respeito que mostram externamente para com os mandamentos de Deus os preservará do exercício da justiça divina. Que ninguém se recuse a ser reprovado pela prática do mal, nem acuse os servos de Deus de serem excessivamente zelosos ao procurar limpar das obras más o acampamento. Um Deus que odeia o pecado apela aos que se declaram guardadores de Sua lei a que se afastem de toda iniquidade” (Ellen G. White, Profetas e Reis, p. 416).
Pecado gravado no coração? Esse é um pensamento assustador, não é mesmo? O que essa imagem diz sobre quão profunda e intensa é a obra de purificar o coração? Qual é a única maneira de realizá-la?

A advertência para Jeremias

“O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3:19).
A triste história de Jeremias é que a oposição que ele enfrentou veio das próprias pessoas que, por meio dele, o Senhor estava tentando salvar. O Senhor desejava poupá-las do desastre que certamente viria. O problema, porém, é que, frequentemente, as pessoas não desejam ouvir as advertências de que precisam, porque vão contra seus desejos pecaminosos e corruptos.
3. Leia Jeremias 11:18-23. O que estavam fazendo contra o profeta? O que algumas imagens usadas no texto nos fazem lembrar?

Embora no antigo Israel aqueles que profetizassem falsamente em nome do Senhor pudessem enfrentar a morte, nesse caso não havia nenhuma indicação de que os homens de Anatote achavam que Jeremias estivesse falando falsamente. Em vez disso, parecia que eles simplesmente desejavam silenciá-lo; não queriam ouvir o que ele tinha a dizer. Embora o texto não diga como planejavam matá-lo, alguns estudiosos acham que talvez estivessem pensando em envenená-lo.
Como vimos, Anatote era também a cidade natal de Jeremias, e seus habitantes estavam rejeitando a mensagem comunicada por ele, a ponto de se disporem a matá-lo. Porém, esse foi apenas o início de uma rejeição muito mais ampla por parte de todos em sua nação, exceto um “remanescente”.
Tudo isso, inclusive a figura do “manso cordeiro, que é levado ao matadouro”, evoca o sacrifício de Jesus. Em certo sentido, Jeremias prefigurava Cristo, não como um tipo, isto é, não da mesma forma que os sacrifícios de animais, mas no sentido de que, como Jesus, ele enfrentou forte oposição, justamente das pessoas que estava tentando ajudar. Essa situação na vida de Jeremias traz à mente o que Jesus passou no início de Seu ministério (Lc 4:14-30).
Qual foi a última vez que você ouviu algo que sabia ser o certo, mas não desejava ouvir? Qual foi sua reação inicial? Em casos como esse, por que precisamos aprender a tomar a cruz?

Uma queixa

Nos capítulos iniciais de Jeremias, o Senhor havia advertido Seu servo de que sua obra, como profeta, não seria fácil. No momento de seu chamado, foi dito a Jeremias que reis, príncipes, sacerdotes e o povo lutariam contra ele (Jr 1:18, 19). Embora tivesse sido dito que o Senhor o susteria e que seus oponentes não prevaleceriam, sem dúvida a advertência de que a maioria de seu povo iria lutar contra ele não era uma notícia bem-vinda. Porém, Jeremias ainda não sabia a metade do que aconteceria, e quando as provas vieram, compreensivelmente, ele ficou irado e triste.
4. Leia Jeremias 12:1-4. Embora falasse de sua situação, com que assunto de interesse universal o profeta estava lutando? Qual foi a atitude dele para com aqueles que o entristeceram? O que isso diz sobre a humanidade dos servos de Deus?

O texto de Jeremias 12:1 (NVI) está repleto de termos legais do Antigo Testamento: as palavras hebraicas para “justo”, “[apresentar] uma causa” e “justiça” aparecem, todas elas, em contextos legais. O profeta, contrariado com o que vinha enfrentando, estava indo “a juízo” (ver Dt 25:1) contra o Senhor. Sua queixa, é claro, ocorre com frequência: Por que os maus pareciam prosperar, ao passo que ele, Jeremias, que buscava somente fazer a vontade de Deus, enfrentava tais provações?
Podemos ver, também, uma demonstração da humanidade de Jeremias: ele desejava que os que fizeram o mal fossem punidos. O profeta não estava falando como teólogo, mas como ser humano caído, necessitado da graça, que, como Jó e muitas outras pessoas fiéis, não entendia por que tudo aquilo estava acontecendo com ele. Por que Jeremias, um servo de Deus, chamado para declarar a verdade divina a um povo rebelde, devia estar exposto às traiçoeiras maquinações de sua própria aldeia? Jeremias confiava no Senhor, mas certamente não entendia por que as coisas estavam acontecendo daquela forma.
Como podemos aprender a confiar no Senhor, apesar de tudo que não faz sentido para nós?

Uma situação desesperadora

5. Leia Jeremias 14:1-10. Qual foi o acontecimento relatado nesse texto?

A seca atingiu o país; todas as cidades e aldeias estavam sofrendo. Pobres e ricos sofriam juntamente. Nem mesmo os animais selvagens conseguiam resistir à falta de água. Os ricos aguardavam seus servos nos portões da cidade, esperando que tivessem encontrado água, mas as fontes haviam secado. Não havia água e, sem ela, a vida não podia continuar. A miséria crescia a cada dia. O povo se vestia de roupas de luto e andava abatido; repentinamente se ajoelhavam e clamavam, pronunciando uma oração desesperada.
No tempo em que ocorreu essa catástrofe natural, era costume visitar o templo de Jerusalém (Jl 1:13, 14; 2:15-17) para jejuar e fazer ofertas especiais a Deus. Jeremias viu a ansiedade do povo, mas sabia bem que eles não estavam buscando o Senhor, mas a água. Isso entristeceu o profeta ainda mais. Jeremias estava orando também, não por água, mas pela misericórdia e presença de Deus.
Além disso, Jeremias entendia que esse era só o começo das provações que viriam. Deus via o coração das pessoas e sabia que, se removesse a seca, o arrependimento também desapareceria. As pessoas faziam de tudo para tentar mudar a situação, inclusive indo a Jerusalém, orando, jejuando, vestindo-se de pano de saco e fazendo ofertas, mas se esqueciam de uma coisa: a verdadeira conversão e arrependimento. Estavam procurando apenas remover os resultados do problema, e não o problema em si, que era seu pecado e sua desobediência.
6. Leia Jeremias 14:11-16. Como entender esse texto?

“Não ore pelo bem-estar deste povo” (Jr 14:11, NVI), disse Deus a Jeremias, ainda que o profeta tivesse apresentado anteriormente um grande exemplo de oração intercessória: “Embora os nossos pecados nos acusem, age por amor do Teu nome, ó Senhor!” (Jr 14:7, NVI). Conquanto sejamos instruídos a orar “sem cessar” (1Ts 5:17), nesse caso o Senhor, que conhece tudo do princípio ao fim, estava revelando a Jeremias o quanto aquelas pessoas eram corruptas e estavam caídas. Ao contrário do ser humano, Deus conhece o coração das pessoas e também o futuro. Portanto, a admoestação do Novo Testamento para que oremos, mesmo em favor de nossos inimigos, não perde nada de sua força diante do texto de Jeremias.

Estudo adicional

Jeremias lutou com um assunto que todos nós enfrentamos: como entender o mal? Mas talvez esse seja o problema: tentar entender o que não faz sentido e que poderia até ser considerado absurdo.
A respeito disso, Ellen G. White escreveu: “É impossível explicar a origem do pecado [mal] de maneira a dar a razão de sua existência. [...] O pecado [mal] é um intruso, por cuja presença nenhuma razão se pode dar. É misterioso, inexplicável; desculpá-lo corresponde a defendê-lo. Se para ele se pudesse encontrar desculpa, ou mostrar causa para sua existência, deixaria de ser pecado [mal]” (Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 492, 493). Como vimos acima, colocamos a palavra “mal” entre colchetes, como alternativa ao termo “pecado”, e percebemos que a declaração funciona da mesma forma.
Quando ocorre uma tragédia, ouvimos as pessoas dizerem, ou então nós mesmos pensamos: Não compreendo isso. Não faz sentido. Bem, há uma boa razão pela qual não compreendemos: é que não é compreensível. Se pudéssemos entender, se fizesse sentido, ou se encaixasse em alguma concepção lógica ou racional, então não seria tão mau; não seria tão trágico, porque teria um propósito racional. É importante lembrar que o mal, como o pecado, muitas vezes não pode ser explicado. O que temos, contudo, é a realidade da cruz, que nos mostra o amor e a bondade de Deus, apesar do mal inexplicável causado pelo pecado.

Perguntas para reflexão
  1. Reflita sobre a ideia de que o mal e o sofrimento não fazem sentido, de que não possuem uma boa explicação ou uma explicação racional. Por que é melhor assim? Imagine esta tragédia: uma criancinha morre de uma doença horrível após anos de sofrimento. Realmente, queremos acreditar que existe uma boa razão, uma razão racional para isso? Não é melhor atribuir o fato ocorrido aos resultados maus e cruéis da vida neste mundo caído?
  2. Pense no ministério profético de Ellen G. White. Corremos o risco de ter com relação a ela a mesma atitude que alguns tiveram para com o profeta Jeremias?

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