24 de outubro de 2015

Mais tristezas para o profeta

VERSO PARA MEMORIZAR: “Senhor, Tu me enganaste, e eu fui enganado; foste mais forte do que eu e prevaleceste. Sou ridicularizado o dia inteiro; todos zombam de mim” (Jr 20:7, NVI).
Qualquer pessoa que estiver seguindo o Senhor por algum tempo aprenderá uma coisa: Crer em Jesus e buscar fazer a vontade dEle não garante uma passagem fácil pela vida. Conforme está escrito: “Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3:12). Essa é uma verdade que Jeremias certamente estava aprendendo por si mesmo.
Contudo, em tempos de provação nossa fé pode nos dar uma compreensão mais ampla, com a qual podemos nos firmar em meio às lutas. Ou seja, quando nos sobrevêm sofrimentos e provações desleais e injustas (sem dúvida, muitas delas são), não temos que ser deixados sozinhos, com a sensação de falta de sentido e propósito, como ocorre muitas vezes com as pessoas que não conhecem o Senhor. Por mais difícil que seja o presente, podemos conhecer um pouco do quadro mais amplo e da esperança final que Deus oferece. A partir desse conhecimento e esperança podemos obter forças. Jeremias tinha certo conhecimento desse contexto, embora, às vezes, parecesse se esquecer dele e se concentrar apenas em suas tristezas.

Sacerdotes e profetas ímpios

Vivendo mais de dois mil anos distante de Judá, no sentido cronológico, e talvez ainda mais no sentido cultural e social, é difícil entender tudo o que se passava no tempo de Jeremias. Quando leem a Bíblia, especialmente as duras advertências e ameaças que Deus proferiu contra as pessoas, muitos acham que o Senhor é apresentado como alguém severo, cruel e vingativo. Contudo, essa é uma falsa concepção, baseada apenas numa leitura superficial dos textos. O que o Antigo Testamento revela é o mesmo que o Novo apresenta: Deus ama os seres humanos e deseja sua salvação, mas não força nossa escolha. Se quisermos fazer o mal, mesmo diante de Seus apelos, somos livres para isso. Só temos que nos lembrar de que há consequências, e que somos advertidos a respeito delas com antecedência.
1. Quais eram os males com os quais o Senhor estava lidando em Judá e contra os quais Jeremias estava profetizando? Jr 23:14, 15; 5:26-31
A lista de males apresentada nesses textos é apenas uma pequena amostra das coisas em que o povo de Deus havia caído. Tanto os profetas quanto os sacerdotes eram “profanos” (Jr 23:11, NVI), uma grande ironia, considerando que os sacerdotes deviam ser representantes de Deus, e os profetas, porta-vozes dEle. Esse foi só o princípio dos problemas que Jeremias confrontou.
Os males apresentados são de vários tipos. Existia a apostasia dos líderes espirituais; eles também levavam outros a fazer o mal, “para que não se [convertessem] cada um da sua maldade” (Jr 23:14). Mesmo quando o Senhor advertia sobre o juízo vindouro, os profetas diziam ao povo que isso não ocorreria. Enquanto isso, como estavam muito longe de Deus, o povo se havia esquecido da admoestação sobre cuidar dos órfãos e defender os necessitados (Jr 5:28). De todas as formas, a nação havia se afastado do Senhor. Grande parte da Bíblia, pelo menos entre os livros proféticos do Antigo Testamento, registra o esforço do Senhor para chamar de volta Seu povo desobediente. Ou seja, apesar de todos esses males, e outros mais, Ele estava disposto a perdoá-los, curá-los, e até mesmo restaurá-los. Mas, se eles não quisessem, que mais poderia ser feito?
Você já leu sua Bíblia hoje? Fortaleça sua vida por meio do estudo da Palavra de Deus.

Jeremias no tronco

Otrabalho dos profetas sempre foi transmitir a mensagem de Deus, não contar quantas pessoas a aceitam ou rejeitam. No momento em que os profetas pregam, geralmente é baixo o número das pessoas que aceitam o que eles estão pregando. Por exemplo, embora não saibamos quantos estavam vivos no tempo de Noé, é razoável presumir que a maioria não foi receptiva, dado o pequeno número de pessoas que entraram na arca. Ao longo de toda a história sagrada, esse parece ser o padrão.
2. Leia Jeremias 20:1-6. Que tipo de recepção teve a mensagem do profeta?
Para obter uma compreensão melhor do que estava ocorrendo, é bom ler exatamente as palavras que Jeremias havia profetizado, palavras que lhe causaram problemas junto ao alto funcionário mencionado na passagem. Em Jeremias 19, temos parte dessa profecia: Deus traria o mal sobre aquele lugar (Jr 19:3), faria com que as pessoas caíssem pela espada e seu corpo fosse comido pelas aves e pelos animais (Jr 19:7), e faria com que os habitantes da Judeia comessem a carne uns dos outros (Jr 19:9).
Ninguém teria ficado feliz em ser objeto de uma profecia dessa natureza. Mas Pasur, como líder, ficou especialmente ofendido. Como ocorre com a maioria das pessoas, sua reação inicial foi rejeitar a mensagem; afinal de contas, quem desejaria acreditar em algo tão horrível? Mais do que isso, usando sua posição, Pasur cometeu o erro de punir o mensageiro. Mandou açoitar Jeremias conforme a lei (Dt 25:1-3) e o prendeu no tronco. No dia seguinte, Pasur o libertou. No entanto, essa experiência dolorosa e humilhante não impediu Jeremias de continuar a transmitir sua profecia, desta vez não apenas contra a Judeia, mas especificamente contra Pasur e sua família. Não demoraria muito para que a sorte de Pasur e seus familiares se tornasse um exemplo a ser temido por todos os que os vissem nas correntes do cativeiro. Esse é também o primeiro lugar do livro de Jeremias em que Babilônia é mencionada como o local do exílio (os capítulos, e mesmo as seções dos capítulos, não estão em ordem cronológica).
Imagine ouvir algo assim profetizado contra você. Sua reação seria diferente? Qual deveria ser sua reação? Leia At 2:37.

Um fogo em seus ossos

As duras palavras de Jeremias a Pasur e à nação não vinham dele próprio; não foram proferidas devido à sua ira por ter sido preso ao tronco por um dia. Foram as palavras que o Senhor lhe deu para transmitir ao povo.
No entanto, as palavras seguintes brotaram do coração de Jeremias, e foram escritas sob inspiração do Espírito Santo. É o sincero clamor de um ser humano que simplesmente não aprecia a situação em que se encontra e clama por causa dela.
3. Leia Jeremias 20:7-14. O que o profeta disse? O que isso nos ensina sobre a natureza humana?
A princípio as palavras dele parecem quase blasfemas. Porém, ficamos imaginando por qual motivo ele disse que o Senhor o havia enganado (v. 7, NTLH) se, desde o princípio, o Senhor o havia advertido de que ele enfrentaria feroz oposição. Contudo, ele se queixou: “Cada vez que falo, tenho de gritar e anunciar: ‘Violência! Destruição!’ Ó Senhor, eles me desprezam” (v. 8, NTLH).
4. Qual é o significado crucial do que o profeta disse em Jeremias 20:9?
Ele teria preferido desistir de tudo e parar de pregar, mas a palavra de Deus era como fogo em seu coração e em seus ossos. Que poderosa metáfora de alguém que conhecia seu chamado e que, apesar do sofrimento pessoal, seguiria esse chamado, não importando o que acontecesse! (Encontramos ideias semelhantes em Amós 3:8e 1 Coríntios 9:16.)
Por que é tão importante, especialmente em circunstâncias difíceis, que louvemos o Senhor e reflitamos sobre as maneiras pelas quais Ele nos tem revelado Seu amor?

 “Maldito o dia em que nasci!”

Até os mais severos críticos da Bíblia teriam admitido um importante ponto: a Bíblia não esconde as imperfeições e fraquezas humanas. Com exceção do imaculado Filho de Deus, que não tinha pecado, a Bíblia expõe fraquezas e falhas da maioria dos personagens bíblicos que têm a vida apresentada em detalhes. Isso é válido até para os profetas. Como foi declarado anteriormente, o Deus a quem esses profetas serviam é perfeito, ao contrário dos profetas que O serviam. Eles, como todos nós, eram pecadores e necessitavam que a justiça de Cristo lhes fosse creditada pela fé (Rm 3:22). Todas as pessoas que viveram no período entre Noé e Pedro foram criaturas prejudicadas pelo pecado. Sua única esperança era, como diz Ellen G. White, ir perante o Senhor e dizer: “Não tenho nenhum mérito nem virtude pelos quais eu possa reivindicar a salvação, mas apresento diante de Deus o sangue totalmente expiatório do imaculado Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Essa é a minha única reivindicação. O nome de Jesus me dá acesso ao Pai. Seu ouvido, Seu coração, estão abertos à minha mais débil súplica, e Ele supre minhas mais profundas necessidades” (Fé e Obras, p. 106).
5. Leia Jeremias 20:14-18. Qual era o estado de espírito do profeta devido à sua situação pessoal?

As palavras dele nos fazem lembrar as declarações de Jó, cuja situação era muito pior que a de Jeremias (ver Jó 3). Embora Jeremias tivesse certeza de que estava fazendo a vontade de Deus e a segurança de que o Senhor estava com ele, a dor de sua situação o consumia. Independentemente de sua compreensão espiritual do que era a verdade, naquele momento ela estava anuviada por suas próprias tristezas.
Às vezes, é possível que muitos se encontrem numa situação semelhante: talvez conheçam intelectualmente todas as promessas de Deus, mas estão tão oprimidos pela tristeza e dor que essas promessas são empurradas para trás, e eles só conseguem se concentrar em seu sofrimento imediato. Essa é uma reação compreensível; não significa que seja correta, mas é compreensível. Mais uma vez, o que vemos aqui é a manifestação da natureza humana de Jeremias, que é semelhante à nossa.
Você já se sentiu em situação como a de Jeremias citada acima? O que você aprendeu com essa experiência que pode ajudá-lo a se sair melhor na próxima vez em que se sentir assim?

Planos contra o profeta

6. Leia Jeremias 18:1-10. Que importantes princípios de interpretação profética encontramos nesse texto?
7. Que princípios espirituais importantes encontramos também em Jeremias 18:1-10?
Apesar de todo o pecado do povo, o Senhor ainda estava disposto a dar-lhe uma chance de se arrepender. Portanto, vemos ali também a graça de Deus sendo oferecida aos que quisessem aceitá-la. Mesmo naquele instante eles ainda tinham tempo de se converter, apesar de tudo o que haviam feito.
Nesses versos, podemos ver também que as profecias podem ser condicionais: Deus diz que fará algo, que, em muitos casos, significa trazer punição; mas se as pessoas se arrependerem, Ele as poupará do castigo. O que Ele fará é condicional e depende da nossa resposta. Por que Deus agiria de maneira diferente? Ele admoestaria as pessoas a abandonar seus maus caminhos se planejasse castigá-las, mesmo que elas se arrependessem e abandonassem o pecado? Na verdade, caso se arrependam Ele não punirá, como o texto diz explicitamente.
8. Leia Jeremias 18:18-23. Que razões as pessoas tinham para tentar prejudicar Jeremias? Qual foi a resposta dele, que reflete sua natureza humana? 
Jeremias deve ter se sentido completamente frustrado ao ser condenado por pessoas que o atacaram porque, como disseram, desejavam salvar “o ensino da lei”, “o conselho do sábio” e “a mensagem do profeta” (NVI). Como o coração pode, na verdade, enganar a si mesmo!
Que cuidado devemos ter ao fazer coisas em nome do Senhor? Comente com a classe.

Estudo adicional

Em Jeremias 18:11-17, o Senhor disse a Seu povo que deixasse de fazer as coisas que estava fazendo. O verso 11 diz: “Convertei-vos, pois, agora, cada um do seu mau proceder e emendai os vossos caminhos e as vossas ações.” No verso 12, o Senhor disse que já sabia que eles não ouviriam Suas advertências e apelos, mas que continuariam a andar “segundo a dureza do seu coração maligno”. O Senhor então disse o que faria por causa da desobediência deles. Esse é um dos muitos lugares na Bíblia que mostram que a presciência de Deus não significa que Ele interfere em nossas escolhas. Afinal de contas, por que o Senhor teria apelado a eles para que abandonassem sua maldade se eles não tivessem liberdade para escolher? Por que Ele iria puni-los pela desobediência se não tivessem livre-arbítrio para obedecer? O Senhor sabia exatamente quais seriam as escolhas deles, mesmo antes que eles as fizessem. Essa verdade crucial também é vista, por exemplo, em Deuteronômio 31:16-21. Mesmo antes da entrada dos filhos de Israel na Terra Prometida, o Senhor disse a Moisés que sabia que eles se voltariam para outros deuses e os adorariam (Dt 31:20). Aqui está outra evidência de que a presciência de Deus a respeito de nossas escolhas não interfere no livre-arbítrio que temos para fazê-las.
Perguntas para reflexão
1.      Você já ouviu pessoas dizerem que estavam fazendo alguma coisa porque o Senhor lhes havia dito que fizessem? De que maneira podemos testar essas supostas orientações para nos certificar de que realmente provêm do Senhor?
2.      Jeremias disse que a palavra do Senhor era como “fogo [...] encerrado nos [seus] ossos”. Como podemos conservar esse fogo ardendo em nós?
3.      O que envolvia o reavivamento e reforma que o Senhor procurava fazer entre Seu povo? Por que o senso de nossa pecaminosidade é tão importante para o reavivamento? Por que a cruz deve ocupar lugar central no reavivamento?
Respostas sugestivas: 1. Os profetas de Jerusalém tinham uma conduta pecaminosa. Por suas palavras e exemplo encorajavam o pecado em outros. Profetizavam falsamente e eram apoiados pelos sacerdotes. 2. A mensagem de Jeremias foi rejeitada. Ele foi açoitado e preso no tronco por causa dela. 3. O profeta disse que Deus o enganou, pois todas as suas mensagens precisavam falar de destruição e, por causa disso, ele era desprezado. Isso mostra que Jeremias, como todo ser humano, era sensível à rejeição. 4. O profeta diz que, quando pensou em desistir de seu chamado, isso foi, em seu íntimo, como um fogo ardente. 5. O profeta estava deprimido. Amaldiçoou o dia do seu nascimento e desejou não ter nascido, para não precisar passar pelo sofrimento que estava passando. 6. As promessas e ameaças de Deus são condicionais e podem se cumprir ou não, dependendo do procedimento do ser humano. 7. Deus está no comando de todas as coisas; nada é impossível para Aquele que pode refazer um vaso estragado. Além disso, são as próprias pessoas que decidem seu destino, ao atenderem ou não à voz de Deus. 8. As pessoas achavam que precisavam forjar projetos contra Jeremias para que os sacerdotes não deixassem de ensinar a lei, os sábios não deixassem de dar conselhos e os profetas não deixassem de transmitir sua mensagem. A resposta de Jeremias foi pedir a Deus que eles recebessem a retribuição por seus atos e fossem punidos segundo a sua escolha.

ADVIR

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