20 de novembro de 2015

As Reformas de Josias



A vida envolve escolhas e Deus deseja que façamos as melhores escolhas possíveis. Elas definem o futuro que teremos. Por isso, Deus usa pessoas como pais, professores e pastores para nos orientar nos melhores caminhos. O livre-arbítrio é um presente que Deus concedeu à humanidade. No entanto, quando é mal empregado se torna um problema, não somente para quem escolhe mas também para aqueles que o cercam.

Nos relatos bíblicos Deus, chama a atenção de Seu povo para seguir os caminhos corretos e abandonar as coisas erradas. Jeremias mostra que Deus respeita a livre escolha do Seu povo, mesmo quando ele escolhe erroneamente. Entretanto, o povo enfrenta as consequências de suas escolhas. Em contraste com muitas decisões catastróficas na história de Judá, o nome e a vida do rei Josias testemunham que Deus é o único que pode curar Seu povo de suas escolhas erradas.

 Os reinados de Manassés e Amom
Um dos maiores perigos trazidos pela idolatria é que as pessoas podem se acostumar com a situação a tal ponto que não percebem sua incredulidade, passando a considerar o pecado como parte da vida cotidiana. Fugindo dos perigos da idolatria, o reinado de Ezequias em Judá teve um caráter próspero, organizador e centrado na vontade de Deus. Contudo, inexplicavelmente seu filho, Manassés, estabeleceu a apostasia de modo tão intenso que ele passou a ser lembrado como o rei mais perverso da história de Judá. Manassés gradualmente reverteu as obras de seu pai. Iniciou com a tolerância à idolatria e por fim chegou a perseguir os adoradores do Deus verdadeiro. “O paganismo reviveu, o povo adorou os ídolos outra vez, e Judá participou amplamente dos males que encheriam a medida da iniquidade da nação”.
Com Manassés, Judá entrou em declínio, o paganismo voltou e com ele a adoração a Baal.

Dimensionando a extensão das consequências, suas escolhas trouxeram males a toda a nação e lançaram por terra as boas escolhas feitas por líderes no passado. “A gloriosa luz de gerações anteriores foi seguida pelas trevas de superstições e do erro. Graves males brotaram e floresceram: a tirania, a opressão e o ódio a tudo que era bom”.

Em meio à desgraça, a vergonha e agonia conduziram o rei Manassés à reflexão e ao arrependimento. Humilhado e preso com correntes de bronze, Manassés foi levado com cordas e anzóis que perfuravam os lábios e o nariz. Outros tipos de brutalidade física aplicadas frequentemente aos reis capturados aumentaram ainda mais a agonia de Manassés que, finalmente, decidiu retornar a Deus.

Arrependido, Manassés implementou mudanças parcialmente eficazes para restaurar a adoração a Deus, mas, essas medidas foram anuladas posteriormente por seu filho. Ao retornar para Judá, Manassés destruiu os ídolos dos templos e também os altares que havia construído. Porém, o danos de seus atos anteriores foram irremediáveis, e seu arrependimento foi tardio para reverter a idolatria. Ele foi sucedido por seu filho Amon e a tentativa de reforma de seu pai foi rapidamente esquecida. Mais uma vez o exemplo negativo prevaleceu e Amon passou a patrocinar a idolatria, sendo assassinado em seu segundo ano de reinado, sem demonstrar arrependimento.

Um novo rei
Sem Deus, ainda que haja consenso, as decisões são erradas. Por vezes nos apoiamos no seguinte provérbio: “Na multidão de conselheiros há sabedoria” (Pv 11:14) para, de certo modo, endossar a importância de se ouvir a maioria. Contudo, só há sabedoria na maioria, quando ela é submissa à vontade de Deus, tendo o “temor do Senhor, que é o princípio da sabedoria” (Pv 1:7).
A democracia não é necessariamente o plano de Deus. Seu plano é que deixemos que Ele nos guie em nossas escolhas do que é bom para nós. Vejamos alguns exemplos bíblicos: No Éden, Adão e Eva, eram a maioria e escolheram comer do fruto que traria desgraça a toda a humanidade. No dilúvio, a maioria escolheu ficar fora da arca, exceto Noé e sua família. No julgamento de Jesus, a maioria gritava “crucifica-O”. Nos exemplos bíblicos, as boas escolhas dependem sempre da direção de Deus, que conhece todas as coisas desde a eternidade.

Na primeira vez em que o povo escolheu um rei, “todos os anciãos de Israel” (1Sm 8:4) foram a Samuel e disseram: “Constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações” (1Sm 8:5). O texto é claro: a maioria (no caso, todos os anciãos) queria um rei. Israel pagou caro por escolher um rei, mas esse não era o plano de Deus, pois Ele sempre tem planos melhores. Ele vê o futuro, vê o mal que está à frente e tenta nos alertar.
A história bíblica também mostra que a maioria dos reis foi infiel e perversa. Cada um era pior que o outro. Hipoteticamente, em meio ao domínio da idolatria, qual seria a chance de haver um rei que temesse verdadeiramente ao Senhor, que não se vendesse à política e que não adorasse outros deuses? No entanto, mesmo quando não mais havia solução aos olhos humanos, Deus levantou alguém com o desejo de ser fiel e restaurar o que estava prestes a ser entregue à destruição total. O reinado de Josias veio como um bálsamo para o povo de Deus, que perecia espiritualmente.

Josias no trono
Josias passou a reinar em Judá após um período de reis infiéis. Ele ainda era menino, com oito anos de idade, e a Bíblia deixa claro que ele “fez o que era reto perante o Senhor e andou em todo o caminho de Davi, seu pai, e não se desviou nem para a direita nem para a esquerda” (2Reis 22: 2). Pelo menos dois fatores importantes pesavam contra esse menino: a hereditariedade e a influência da cultura de sua época.

Ao analisar alguém, é comum olhar para o passado e dizer que essa pessoa agiu dessa ou daquela maneira porque seus pais agiram assim, e concluímos que o comportamento errado foi transmitido hereditariamente. Embora o pecado seja herdado desde o Éden, temos à disposição um poder muito superior ao pecado, uma força que pode mudar as tendências hereditárias. O ser humano não consegue mudar sozinho seus maus hábitos. Ao contrário, “muitos têm que lutar contra fortes tendências hereditárias para o mal, fortes desejos não naturais e impulsos sensuais. Eis a herança que, por nascimento, receberam”. Contudo, não precisamos nos desesperar, pois sabemos que “Cristo deu Seu Espírito como um poder divino para vencer todas as tendências hereditárias e cultivadas para o mal.” Assim, as tendências hereditárias do rei Josias não foram desculpa para seguir o caminho pecaminoso de seus antepassados.

Outro ponto em questão: Josias era apenas um menino. Sendo tão novo, ele era altamente influenciável. Contudo, escolheu não ser imerso na cultura idólatra de sua época, mas ser fiel a Deus. Como o rei Josias evitou a contaminação? Podemos dizer que ele se submeteu a uma forte atuação do Espírito Santo e superou a hereditariedade e os riscos da juventude.

O rei Josias foi além de sua fidelidade a Deus. Pensando no benefício comum, mandou restaurar o Templo quando soube que o lugar sagrado estava danificado. Que tenhamos essa ousadia de ser fiéis a Deus, independentemente de nossas tendências hereditárias ou da cultura ao nosso redor. O poder divino está disponível para que alcancemos esse ideal.

O livro da lei
Os escritos de Moisés, usados como guia por muito tempo no reinado de Ezequias, foram displicentemente perdidos por seu sucessor Manassés, por ter sido irrelevante aos seus olhos. Muitos anos depois, foram encontrados pelo Sumo sacerdote Hilquias, durante uma a reforma nas instalações do templo. Sob a ordem desse sumo sacerdote, o escriba Safã realizou a leitura desse rolo perante o rei Josias que, ao ouvir as palavras de Deuteronômio, referentes às bênçãos da obediência e às maldições da desobediência, rasgou as vestes em sinal de preocupação pela situação do povo e seu fim iminente.
Conforme anunciado pela profetisa Hulda, a sentença estava sobre a nação pelos pecados cometidos. Apesar disso, Josias sentiu o chamado para a obediência e realizou uma reforma. Ellen White afirmou que o rei encontrou nas Escrituras “um poderoso aliado na obra de reforma que tanto desejava ver executada na terra. Resolveu andar na luz dos seus conselhos e também fazer tudo que estivesse em seu poder para familiarizar seu povo com seus ensinos.” O rei havia escolhido corretamente seguir os conselhos inspirados, motivo pelo qual Deus disse que os juízos não aconteceriam em seu tempo e ele descansaria em paz (2Rs 22:20).

O rei Josias entendeu a seriedade do que havia escutado em relação ao livro da lei, mesmo com o juízo já anunciado. Por meio das Escrituras, de sua própria escolha e do poder de Deus, a reforma aconteceu, não somente na adoração externa, mas também na mente e no coração do povo.

As reformas de Josias
Mesmo sabendo da destruição, as reformas foram levadas a sério pelo rei. Em primeiro lugar, ele “se prostrou perante Deus em agonia de espírito, suplicando perdão para os pecados de uma nação impenitente.” Após a leitura do livro da lei pelo escriba Safã, iniciou-se a reforma que teve repercussão em todo o reino de Israel. Josias deu ênfase à restauração espiritual, destruindo os ídolos pagãos. Houve a necessidade de uma ação detalhada na remoção dos itens de idolatria, pois eles ainda conspiravam contra o sucesso da reforma.

Desde aquela ocasião, a Páscoa passou a ser comemorada com toda a nação juntamente, simbolizando a libertação do cativeiro egípcio no Êxodo, a aliança e principalmente um novo começo. Mesmo assim, contrastando com o simbolismo da festa celebrada, havia ainda o juízo que viria em breve sobre a nação.
Josias é destacado por sua sinceridade, motivação e empenho que levaram o povo de Deus às reformas espirituais (2Rs 23:25). Os ouvidos que haviam rejeitado a mensagem, sob o comando do rei, estavam prontos a ouvir a nova ordem.


Márcio Costa
Coordenador acadêmico do Curso de Teologia
SALT-IAP
mdcosta@gmail.com

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