5 de novembro de 2015

Atos Símbólicos

Imagine que você tivesse algo importantíssimo para dizer. Quais recursos você usaria para certificar-se de que as pessoas o entenderiam? Provavelmente, você empregaria todos os métodos disponíveis. Como veremos a seguir, o Senhor usou muitos símbolos para tentar alcançar Seu povo, tais como o vaso e o oleiro, a botija e o cinto de linho. O povo ouviu e entendeu, contudo escolheu não seguir os conselhos, a despeito das consequências que viriam. Hoje, podemos extrair lições espirituais para que o mesmo juízo não sobrevenha à nossa vida. Para isso, devemos permitir que o Senhor nos molde, assim como o oleiro molda o barro.

A verdade em símbolos
Deus sempre quer Se comunicar com Seu povo e colocar a verdade em seu coração. Para isso Ele tem usado diferentes métodos ao longo do tempo. Entre eles, estão os símbolos. Através de símbolos Deus tem ensinado verdades eternas para a humanidade. Assim como no Antigo Testamento, no Novo Testamento, Jesus também usou símbolos e histórias por meio dos quais expressou grandes verdades.

Um símbolo que mostra que a salvação não depende dos méritos humanos é o episódio da serpente de bronze levantada no deserto (Nm 21: 4-9). Ali, mais uma vez os israelitas precisavam entender que a cura em relação às picadas das serpentes não estava neles mesmos, mas em Deus. Ele era único que podia trazer a cura. Aquela serpente não tinha poder em si mesma, porém, naquele momento, ela se tornou um símbolo de Cristo. Olhar para a serpente exigia fé e mostrava quanto eles estavam dispostos a crer no que Deus pediu. A fé era o elemento aceitável diante de Deus. Ainda hoje sentimos o efeito mortal da picada da antiga serpente (Ap 12:9), porém esse efeito pode ser removido quando, com fé, olhamos para Cristo. “Diferente do símbolo inanimado, Cristo tem poder e virtude em Si mesmo para curar o pecador arrependido.”

O símbolo da serpente de bronze exigia o exercício da fé dos adoradores. Eles deviam crer que suas ações eram aquilo que Deus havia pedido. Portanto, seria um erro tentar adorar a Deus de maneira diferente do que o Senhor havia solicitado ou de um modo conveniente ao adorador. Podemos cair no erro de pensar que estamos adorando a Deus simplesmente pelo fato de ir à igreja e participar das atividades sociais da nossa comunidade religiosa. A pergunta para nossa reflexão é: Estamos adorando a Deus da maneira que Ele nos pede em Sua Palavra?

O barro do oleiro
O pecado continua afastando a criatura do Criador e, muitas vezes, a distância se torna tão grande que parece não ter possibilidade de volta. Humanamente, não conseguimos ver como uma situação tão grave pode ser revertida. Contudo, apesar de todos os erros humanos, se os pecadores permitirem, Deus transformará o coração deles e os resgatará, por maior que seja a distância.

Em Jeremias 18:6, após o profeta ter visto o trabalho do oleiro, Deus fez a seguinte pergunta: Não poderei Eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?” A ilustração do oleiro moldando o barro deve nos trazer duas aplicações básicas. Primeiro, Deus é quem tem poder para mudar o coração humano. Ninguém, por mais esforços que faça, consegue mudar sua natureza. Segundo, Deus tem o controle da vida em Suas mãos. Ellen White diz: “Não devemos procurar fazer a obra do Oleiro. Nossa parte consiste em nos submeter à moldagem do grande Artífice”.

Como nação, Israel estava nas mãos de Deus. Na ilustração do oleiro, o barro estragou (Jr 10:4). Assim, o oleiro poderia jogar fora aquele barro, contudo, não foi isso que ele fez. O oleiro aproveitou aquele barro. Espiritualmente, Israel quebrou a aliança com Deus e o Senhor poderia descartá-los, mas, em Sua misericórdia, o Senhor estava dizendo que os usaria e os moldaria, caso eles permitissem. Assim, temos a certeza de que Deus tem o controle da história e nada pode se perder em Seu poder. O que precisamos fazer é permitir que Ele nos restaure e molde.

A degeneração de uma nação
O pecado nunca se restringe a um ato isolado. Ele é gradativo e não pode ser compartimentalizado. Não é do dia para noite que uma pessoa ou uma nação se corrompe. Tudo começa quando se faz a primeira concessão e a mente humana racionaliza: “É só desta vez, isso não é tão ruim assim, todo mundo está fazendo, ou, Deus vai me entender”. Essa racionalização do pecado, por mais inofensiva que possa parecer, é suficiente para que o mal comece uma obra que leva para muito longe de Deus.

Podemos exemplificar o poder do mal em ação com a história do anjo de luz que havia no Céu. Ele se corrompeu e conseguiu arrastar a terça parte dos anjos. A seguir, quando o pecado entrou na Terra de maneira tão devastadora, ele conseguiu degenerar o planeta. Nesse caso, mesmo diante de muita misericórdia divina, apenas oito pessoas da família de Noé escolheram a salvação.

Com a nação de Israel, em Jeremias 19, não foi muito diferente. As pessoas haviam se corrompido a ponto de não só terem deixado de adorar da maneira que Deus havia pedido, mas também faziam coisas que Ele havia expressamente proibido. O povo escolhido por Deus, que via a manifestação poderosa em seu meio, começou oferecer sacrifícios humanos e queimavam seus próprios filhos ao deus Baal (Jr 19:5).

As crianças eram colocadas sobre os braços de uma estátua de bronze, em seguida rolavam para dentro de um poço de fogo. Diodoro não explica claramente se a criança era morta antes ou se era colocada viva, “é possível que, no tempo de Jeremias, as crianças fossem mortas antes”. Como é triste ver que o pecado nos leva para bem longe dos princípios divinos. O povo que tinha grande conhecimento de Deus se afastou do Senhor por causa dos pecados.

Em nossa vida, “grandes pecados” podem começar com pequenos atos isolados e, com o passar do tempo, passamos a fazer coisas que jamais imaginaríamos ser capazes de fazer. Outra lição que podemos tirar é que, o mesmo Deus que é amor também é justiça, e um dia haverá o acerto de contas assim, como foi com Israel.

Quebrando a botija
Algumas lições ensinadas por Deus nos símbolos eram bem mais duras que outras e esse é o caso em Jeremias 19, onde a mensagem é descrita de maneira impactante. Imaginemos o contexto anterior: O povo de Israel entendia que era o vaso nas Suas mãos e que o oleiro molda e reaproveita o barro, mesmo quando ele se estraga. E acima de tudo, o oleiro direciona o barro para a finalidade correta. Entretanto, o contexto muda radicalmente, pois Jeremias comprou (ou pegou) o vaso, trouxe consigo também os líderes do povo e dos sacerdotes (v. 1), e fez a advertência que o Senhor havia ordenado, e foi até a porta do oleiro. O Comentário Bíblico Adventista sugere que o melhor termo seria “a porta dos cacos” (BJ). Possivelmente chamada assim porque tivesse levado ao local em que eram lançadas as peças de cerâmicas quebradas. Sendo assim, todo o cenário proveu Jeremias com uma ilustração gráfica do que estava prestes a acontecer com os judeus devido à sua apostasia”

Com essa cena em mente, Jeremias então, obedecendo à ordem de Deus, quebrou a botija na frente dos líderes que tinham ido com ele (v. 11, 12). Imagine que eles entenderam tudo o que estava sendo apresentado. Jeremias anunciou as palavras de Deus que iam direto ao ponto: “Deste modo quebrarei Eu este povo e esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro”. Deve ter sido impressionante para eles ver como seria seu triste fim, quebrados de maneira a ficar inutilizados para o propósito original de Deus.

O ponto mais marcante na rejeição do plano divino por parte do povo de Israel aconteceu no ano 40 d.C, quando terminou a profecia das setenta semanas (Dn 9) e o povo selou sua rejeição ao Messias apedrejando Estevão. Reflita: Não estamos também rejeitado a Deus e Seu grande amor para conosco?

O cinto de linho
O cinto de linho descrito em Jeremias 13 é outro símbolo que Deus usou para prefigurar a destruição de Seu povo. Nesse episódio Deus ordenou ao profeta que comprasse um cinto de linho (v. 2), depois fosse até o rio Eufrates e escondesse o cinto (v. 6). Por fim, após muitos dias (a Bíblia não deixa claro quantos dias), o profeta retirou o cinto de seu esconderijo e ele estava completamente estragado e não mais utilizável. Assim, Deus disse que faria “apodrecer a soberba de Judá e muita soberba de Jerusalém” (v. 9).

É muito difícil acreditar que o povo não entendia os símbolos que Deus estava usando para descrever sua triste condição espiritual e seu terrível fim. Semelhantemente, é possível que o mesmo esteja acontecendo conosco ao receber as advertências de Deus ao ler Sua Palavra e os escritos do Espírito de Profecia. Elementos básicos da vida cristã são colocados de maneira clara diante dos nossos olhos. Contudo, apesar de entendermos, ainda persistimos na negligência.
Que Deus não permita que nossa condição espiritual chegue ao estado dos israelitas do tempo de Jeremias. Não sejamos apenas meros espectadores do que Deus está falando, mas, ao ler a Bíblia, façamos uma profunda reflexão de nossa vida espiritual. Assim como foi para Israel, Deus também tem sido paciente conosco. Que possamos nos apoderar das promessas que nos mantêm perto de Deus e ao mesmo tempo longe da idolatria que lentamente se alastrou em Israel. Dessa forma, apreciaremos ainda mais esse Deus que usa de todas as maneiras para alertar Seus filhos.


Márcio Costa
mdcosta@gmail.com
Professor de Teologia 
IAP

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