15 de novembro de 2015

comportamento :A grande arte de calar a boca

Talvez vocês achem que eu fale muito. Alguns podem até ter certeza absoluta e parte deste grupo, inclusive, tem ojeriza à minha pessoa justamente por este detalhe. Não bem um detalhe, admito, mas parte relevante da minha personalidade e para os haters peço uma trégua e certa complacência para humildemente contar: já fui bem pior! Tenho lidado com uma tentativa – e várias quedas no percurso – de falar menos. De calar a boca, mais precisamente.
Isto porque pessoas como eu, talvez você, ou mais alguém que você conhece, tem uma incrível facilidade para falar, falar, voltar a repetir e mesmo que o interlocutor não te queira… falar de novo! É a esposa que grita e repete a mesma coisa, o filho que atormenta o pai, a mãe que ira seu filho de tanto torrar o verbo…. O pior, no meu caso, é que falo com convicção. Quase sempre! E se tem injustiça ou incoerência do outro lado, falo mais ainda, se é que isto seja verbalmente possível.
Mas tenho desenvolvido um hábito há algum tempo: falar sozinha. Não são solilóquios necessariamente, mas discussões mentais com a pessoa para quem eu gostaria de despejar um tantão de impropérios. Já briguei com meu namorado, depois meu marido, já desaforei meu chefe, meu líder, meu pastor, meu amigo, azinimiga, até o cara mal educado do busão. Mas não se ouviu um único grunhido meu. Amém por isto.
É que sou má quando me dano a falar. Já quis ser promotora de justiça, te contei? Sonhei em ser juíza também. Todavia desconfio que o jeito austero invocado na profissão talvez não combine de todo com minha personalidade. Ainda que tenha feito acusações homéricas perante tribunais lotados, aclamada pela retórica, clareza e correção de meus argumentos. Os juris não tinham como se esquivar à minha razão. Tudo em pensamento, nada são.
E você pode me perguntar de que adianta falar sozinha, escrever verdadeiros manifestos se só eu vejo, desfruto, amargo ou exulto. Bem, é pra não ofender ninguém de verdade. Parece fraco, eu sei, mas me acho a mais forte das criaturas ao fazer isto. Sim, considero-me a própria Mulher Maravilha por conseguir controlar minha língua ferina e bem rebelde dentro de minha folgada boca, ainda que com a ajuda de dentes fortes fechados em mordida.
Admito: por muito tempo achei que não se deve “engolir sapos” e despejar tudo o que julgo “verdade” era a forma certa de agir. Tolice minha. A começar por eu não ser a rainha da mesma, da verdade, no caso, a terminar pelas consequências que isto gerava e eu não tinha como remediar. Quanta bobagem falei, quanta gente magoei, quantos erros vociferei por não atentar ao verso 6 de Tiago 3 “A língua é um fogo, um mundo de iniquidade”. Aliás, este capítulo todo leio e releio de tempos em tempos, só pra me lembrar.
Não que a vontade de falar algumas coisas na cara de algumas pessoas não me pegue de assalto seguidas vezes. Se pega! Certas coisas ainda serão ditas, suponho, pra pessoa certa, na hora certa. Ou talvez nunca. É que tento levar mais à rica a recomendação do sábio “há tempo de falar e tempo de calar a boca”! Como falo muito, tento praticar a outra ponta deste mesmo tempo.

fabianabertotti

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