Essa manifestação extravagante do amor de Deus

O espetáculo da cruz
E todas as multidões reunidas para este espetáculo, vendo o que havia acontecido, retiraram-se a lamentar, batendo nos peitos. Lucas 23:48 (ARA)
Vivemos na era do espetáculo, ou dos pseudoespetáculos. Mesmo as pequenas coisas, que, no máximo, mereceriam ser comentadas na cozinha ou na sala, vão parar na internet para todo o mundo ver e admirar. Sem medo do ridículo, as pessoas querem dar seu showzinho diário.
Entretanto, existem espetáculos de verdade. A cruz é um espetáculo cósmico, revelando ao universo quem é Deus e o que ele está disposto a fazer por amor. Ao mesmo tempo, mostra quem é o diabo e o que ele fez em busca de poder. Como método divino para eliminar o mal, a cruz expõe aos olhos de todos o caráter amorável de Deus. Foi para isso também (ou sobretudo) que Cristo veio.
A ideia de espetáculo, no sentido de atrair os olhares para uma situação crí­tica, vem desde o Antigo Testamento. Se o povo de Israel fosse obediente ao con­certo, atrairia a atenção do mundo para Deus; se fosse infiel, Deus o colocaria como espetáculo negativo. Entregues ao castigo, os próprios rebeldes veriam seu triste espetáculo (Dt 28:67; Jr 15:4; 29:18; 34:17; Na 3:6, ARA).
No Novo Testamento, a cruz de Cristo é apresentada como espetáculo. Essa ideia aparece em João 12:32: "Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim." Jesus é "levantado" na cruz e depois é "levantado" (exaltado, glorificado) aos olhos do universo. Ele se tornaria um espetáculo público tanto para revelar a Deus quanto para desmasca­rar Satanás. Se a Terra se torna um palco cósmico, a cruz é o drama central. Porém, João não é o único a sugerir essa ideia. No verso de hoje, ao descrever a morte de Jesus, Lucas explicitamente menciona a crucifixão como espetáculo. De fato, quem não se comove com tal espetáculo de amor divino, crueldade diabólica e incredulidade humana?
Na cruz, Deus assume o lugar do seu povo e, numa incompreensível atitude de humildade e humilhação, torna-se um espetáculo vergonhoso para o mundo. Porém, o significado do espetáculo é invertido. O símbolo de vergonha vira motivo de glória. O instrumento de tortura transforma-se em meio de libertação. Da maior derrota (voluntária) surge a maior vitória. Deus dá a vida para conquistar a morte. "Perde" para ganhar. Ama até a morte na Terra para continuar, livremente, a ser amado por todo o universo. Sua ação no tempo tem ressonância na eternidade.
O espetáculo da cruz continua com os seguidores de Jesus. Segundo Paulo, os demais apóstolos foram grandes atores nesse espetáculo (1Co 4:9, ARA). Contudo, há muitos outros ainda hoje. O espetáculo inclui o sofrimento dos cristãos por amor a Cristo (Hb 10:32, 33, ARA). Por isso, dê um espetáculo, mas o espetáculo da cruz.
Amor extravagante
Os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pelo que ela amou muito. Lucas 7:47
Em 1990, uma festa incomum foi realizada no Hotel Hyatt, em Boston. Era para ser uma festa de casamento. O evento custou 13 mil dólares, e os noivos deram a metade do valor como adiantamento. Porém, na hora de distribuir os convites, o rapaz terminou o noivado. A moça foi conversar com o gerente do hotel. Ele disse que só devolveriam 1.300 dólares. A ex-noiva, que dez anos antes havia vivido num abrigo para sem-tetos, resolveu então convidar os mendigos para a celebração no hotel luxuoso. No dia da festa, os garçons com seus smokings serviram comidas e bebidas refinadas para os moradores das ruas e dos abrigos, ao som da orquestra.
Essa manifestação extravagante de amor, como observou Philip Yancey, lembra outra festa que ocorreu há cerca de 2 mil anos. O evento foi na casa de um fariseu chamado Simão, um nome tão comum como Silva hoje. Jesus era uma cele­bridade, e Simão desejava honrá-lo, especialmente porque o Mestre o havia curado de sua terrível doença, a lepra.
No Oriente, na época, as festas eram semipúblicas, até porque as pessoas iam para ouvir o discurso do convidado famoso. Entre a mesa do jantar e a parede havia um espaço em que as pessoas podiam se aglutinar para ouvir a conversa entre o anfitrião e os convidados. Por isso, não é tão estranho que uma mulher que não estava na lista de convidados tenha comparecido à festa.
Há um debate acadêmico sobre a identidade da mulher. Há quem diga que era Maria de Magdala e quem afirme que não. Isso não importa aqui. O fato é que a mulher tinha má reputação na cidade. O termo "pecadora" (harmatolos) sugere que ela havia cometido pecado de natureza sexual. De fato, ela ficou conhecida como prostituta.
Contudo, essa mulher fora perdoada, aceita, valorizada, e desejava extravasar sua gratidão. Ela ungiu Jesus com um perfume caríssimo, cuja essência talvez tivesse vindo do Himalaia. Custava cerca de 300 denários romanos, o equivalente a 1.168,5 gramas de prata ou 300 dias de trabalho de um operário. Alguma vez, você já ofereceu a Jesus o produto de um ano inteiro de trabalho?
Não sabemos se a mulher era pobre ou rica. Porém, sabemos que fez uma extravagância por amor e gratidão. Ela amava muito porque fora muito perdoada. Não é o amor que leva ao perdão, mas o perdão é que leva ao amor. O fato é que o exa­gero da mulher não foi tão grande quanto o exagero de Deus, que quebrou o vaso da graça na cruz para inundar o mundo com o perfume do amor divino.
Quanto maior o pecado, maior o perdão; quanto maior o perdão, maior o amor; quanto maior o amor, maior a gratidão.

Fonte: Meditações Diárias  2016

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