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O poder da música 2


Descubra até que ponto ela pode nos influenciar
A música pode animar um ambiente, reforçar sentimentos num filme, embalar o sono e ritmar um trabalho. Mas há pessoas que creem no poder absoluto da música, atribuindo a ela a capacidade de dominar a vontade, transformar o caráter e mudar corações. No entanto, acreditar que a música tenha um efeito persuasivo sobre a moral das pessoas é como crer que foi a música que derrubou os muros de Jericó.
Não é raro ver pessoas que usam o relato bíblico de 1 Samuel 16:23 como texto-prova do poder da música. Nesse verso, a Bíblia registra que Davi tocava sua harpa e acalmava o rei Saul. Em 1538, Martinho Lutero escreveu sobre o efeito da música de Davi: “Até o Espírito Santo paga tributo à música quando registra que o espírito maligno de Saul era exorcizado quando Davi tocava sua harpa” (citado por Richard Bainton, em Here I Stand: a life of Martin Luther, p. 354).
Foi assim que os “acordes sublimes e de inspiração celestial tiveram o desejado efeito. A acalentada melancolia que, semelhante a uma nuvem negra, se havia fixado no espírito de Saul, desaparecia como por encanto” (Patriarcas e Profetas, p. 643). Ao dizer que a música fazia desaparecer a melancolia do rei “como por encanto”, a escritora Ellen White entendeu que a música tem mesmo um efeito sobre o humor das pessoas. A metáfora “por encanto” é apenas uma figura de linguagem que serve para falar desse poder quase mágico que atribuímos à música.
De fato, uma música animada pode melhorar o humor e uma música de que gostamos pode evocar boas ou más lembranças. No entanto, há situações em que a música não exerce impacto algum, pois a vontade humana é mais forte que ela. Se considerarmos, por exemplo, o contexto da relação Davi-Saul, perceberemos que a Bíblia não diz que a música tem um efeito transformador sobre o caráter ou a personalidade das pessoas.
Após derrotar o filisteu Golias e vencer outras batalhas, o heroísmo do jovem Davi foi cantado num refrão cuja letra é de causar desarmonia em qualquer partido político: “Saul matou milhares, mas Davi matou dezenas de milhares” (1Sm 18:7). Foi assim que a letra de uma música incitou a inveja em Saul: “Saul ficou muito irritado com esse refrão e, aborrecido, disse: ‘Atribuíram a Davi dezenas de milhares, mas a mim apenas milhares. O que mais lhe falta senão o reino?’” (v. 8). Quando Davi voltou a tocar harpa perante o rei, a reação de Saul foi bem diferente, pois mesmo ao som da música suave ele atirou a lança duas vezes contra Davi (v. 10-11), que se salvou porque, além de bom músico, tinha ótimos reflexos.
(...)“[Saul] Gostava de ouvir Davi tocar harpa, e o espírito mau parecia afastar-se como por encanto durante aquele tempo. Um dia, porém, quando o jovem estava a servir perante ele, e de seu instrumento extraía música suave, acompanhando sua voz a cantar os louvores de Deus, subitamente Saul arremessou a lança contra o músico com o intuito de dar fim à sua vida” (Patriarcas e Profetas, p. 650-651).
E a situação se repetiu em outra ocasião, registrada em 1 Samuel 19:9-10. (...) “era a inveja o que infelicitava a Saul” (ibid., p. 651) e, por isso, “enquanto o moço tocava perante o rei, enchendo o palácio de suave harmonia, a paixão de Saul o venceu e ele arremessou um dardo contra Davi” (ibid., p. 652 e 653).
Davi tocou música suave e cantou letras de adoração a Deus, mas isso não surtiu efeito nenhum sobre a fúria do rei. Saul não mudou de ideia nem mesmo ouvindo música de louvor ao som da harpa. Assim, partindo da ideia de que determinadas músicas exercem um poder irresistível sobre a intenção e o caráter das pessoas, teríamos que dizer que Davi despertou os instintos mais primitivos de Saul quando tocou um funk amalequita ou um heavy metal filisteu?
O fato é que Saul passou a invejar a popularidade de Davi. Portanto, não havia música de harpa que pudesse deter a vontade assassina do rei. Esse relato bíblico não é um manual de musicoterapia nem um guia de estilos musicais. Se formos extrair alguma lição musical, veremos que, nesse episódio, a Bíblia demonstra que o efeito da música sobre as pessoas depende do estado de humor, da predisposição individual de alguém para envolver-se com a música e até mesmo, como no caso de Saul, da relação pessoal do ouvinte com o músico.
JOÊZER MENDONÇA, doutor em Musicologia (Unesp) com ênfase na relação entre teologia e música na história do adventismo. É professor na PUC-PR e autor do livro Música e Religião na Era do Pop

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